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domingo, 19 de março de 2017

Onde vivo?

Por Maria Teresa Freire
Curitiba, PR, Brasil
@: freire.mteresa@gmail.com
Imagem: blogs.universal.org
Sou brasileira. Moro no Brasil. Mas, não sei bem que país é esse. Não reconheço meu próprio local de moradia. O cerne dessa dúvida é a existência de dois Brasis. O Brasil político e o social, da população. 
No Brasil político habitam homens e mulheres que convivem restritos a um Distrito. Lá, eles trabalham para uma instituição que se intitula Governo. Os cargos são variados. Do mais alto, presidente, ao menor que são todos aqueles que se profissionalizaram como políticos e também aqueles que estão envolvidos com esses mesmos políticos. 
No Distrito, eles desenvolvem seus trabalhos aleatoriamente ao que acontece no outro Brasil, no social. Legislam em causa própria. Defendem leis que os protegem de seus comportamentos, os mais escabrosos. Organizam reuniões, na calada da noite, para criar sanções, medidas provisórias e outros regulamentos que objetivam controlar o Brasil social, nunca o deles.
Nessas reuniões escusas, cujo conhecimento o Brasil social só tem no dia seguinte através dos noticiários da televisão, do rádio, da internet e por meio dos jornais, eles aumentam seus salários já astronômicos, preparam projetos que beneficiam altamente os habitantes do Distrito, ou seja, do meio político, realizam conchavos regados a propinas exacerbadas, fecham acordos multimilionários com empresas que nem trabalham para os verdadeiros brasileiros. 
Sempre, esses seres pertencentes ao Brasil político apresentam a desculpa que suas ações e iniciativas visam ao bem do Brasil. Qual Brasil?
A justificativa para suas propostas encobrem o real motivo, que é delegar ao Brasil social a responsabilidade de corrigir seus erros, suas falhas. E o pior, pagar, na acepção da palavra, por seus roubos, desvios de recursos, corrupção inimaginável. A explicação é sempre argumentada em favor desse grupo que é menor, entretanto tem o poder, a capacidade de governar os outros milhões de pessoas que, acuadas, se vem obrigadas a se submeterem aos seus descalabros governamentais.
Ligados ao Distrito, porém habitando distante, outros membros também compactuam com a corrupção alastrada, como se fossem extensões do pensamento que norteia as atividades do núcleo central. Também advogam por causa própria, esvaziando os cofres dos seus locais de atuação, mascarando o verdadeiro interesse de participarem de conluios deflagrados pelo Brasil político. Não objetivam trabalhar em prol do povo que lhes depositou confiança, mas sim alcançar patamares de riqueza que o trabalho árduo e honesto não lhes conferiria. 
O Brasil social se calou e por tempos “viveu em berço esplêndido” outorgado pela natureza. Todavia, chegou o dia de despertar ao sentir seus direitos de cidadãos vilipendiados, ultrajados, sem nenhum respeito às suas contribuições para o progresso do país. 
A saúde estava mais doente do que a doença mais grave. Os hospitais, as unidades de saúde haviam se tornado unidades de doença e de decadência médica e social. As escolas, onde o saber se cria e se apodera das crianças e de adolescentes para lhes viabilizar posições importantes na sociedade com as profissões necessárias à emancipação social, estavam depredadas. Faltava estrutura física para atender aos estudantes e o pior, faltava professores entusiasmados e bem pagos. Faltava educação. 
O ir e vir livre que todo cidadão que vive no Brasil social tem direito estava cerceado pela violência, pelos ataques de marginais que armados buscam os objetos, quiçá a vida daqueles que verdadeiramente fazem o Brasil avançar em direção ao desenvolvimento. Que desenvolvimento? Sem empregos, sem esperanças, a massa humana, compactada pelo desrespeito e falsidade se desloca sem sonhos a serem sonhados e concretizados. 
O Brasil social, exausto pela exploração foi às ruas soltar seu grito, lutar pelo país que não se resume em corrupção, mostrar ao mundo que o grupo que dirige o país não é a representatividade da população brasileira. Conquistou, exigiu, conseguiu. Mas ainda não é o suficiente. A lição ainda não foi totalmente assimilada.
É preciso que os gritos retornem aos espaços públicos mostrando a raiva, o desgosto, a não aceitação das injustiças que tem sido imputado aos habitantes do Brasil social, como se fossem marionetes sem vontades ou compreensões. 
Ao esconderem-se atrás das proteções de vidro, os moradores do Brasil político esquecem que são observados através da transparência vitral. Acreditam que suas baboseiras são aceitas como leis imutáveis. Ao contrário, o Brasil social enxerga, arrancou a lente da miopia e acompanha, persegue os movimentos desastrosos que pretendem lhes tirar o mínimo de vivência obtida.
Não está bom, tem que melhorar e muito. Tem que haver mais justiça. Tem que continuar investigando. Tem que levantar a cobertura grossa e negra que recobre o chamado Governo, em todos os seus níveis, para deixar à luz e aos olhos de todos os arranjos para matar a ética, a honestidade, a hombridade, o trabalho honesto, a solidariedade, a governança pelo bem do povo.
Como reconhecer onde vivo?
Maria Teresa Freire
Maria Teresa Freire é Doutora em Comunicação e Saúde (PUCPR), Mestre em Educação (PUCPR), Graduada em Comunicação Social/Jornalismo (UFPR). Graduada em Língua Francesa e Inglesa. Professora de Graduação e Pós-Graduação de Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade/Propaganda. Consultora em Educação e Comunicação. Publicações em Revistas Científicas. Participações em Congressos nacionais e internacionais. Escritora com livros publicados e participações em sites literários e Coletâneas.

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