terça-feira, 17 de abril de 2018

Feira Literária do Sergipe terá palestrante de Mato Grosso do Sul

Tatiane Araujo fotografia
A Academia Gloriense de Letras – AGL, da cidade de Nossa Senhora da Glória, Estado de Sergipe, organizará a Feira Literária de Glória – FLIG, entre os dias 25 a 27 de abril de 2018, no espaço Boteco do Sertão. O evento conta com a parceria do Clube de Leitura Antônio Carlos Viana, Instituto Federal do Sergipe, Academia Sergipana de Contadores de Histórias e Universidade Federal de Sergipe – UFS.

Confirmaram presenças a poeta e prosadora Dina Salústio, de Cabo Verde na África, o escritor Lau Siqueira e o poeta e escritor sul-mato-grossense, Rogério Fernandes Lemes. O escritor Lucas Lamonier, Presidente da AGL, é quem está à frente dos trabalhos literários. A Abertura Oficial da FLIG será na quarta-feira (25), às 18h, com a participação especial da Orquestra Sinfônica da UFS e o encerramento, na sexta-feira (27), às 17h.

A FLIG terá, como atrações abertas ao público, Exposições, Contação de Histórias, Rodas de Leitura, Palestras, Oficinas de Teatro e Cordel, Lançamento e Vendas de Livros, Apresentações Artísticas de Dança, Painel Interativo, Poesia Fonada, Café Literário e o Cordel no Pingo do Meio Dia, sempre às 12h. A entrada é gratuita.

O amambaiense Rogério Fernandes Lemes terá duas participações na quinta-feira (26). A primeira palestra às 15h, com o tema “Os desafios editoriais no Brasil” e, às 20h, com o tema “Literatura e Ficção”. O convite veio do Presidente da AGL, em reconhecimento pela atuação literária do poeta e escritor Rogério Fernandes Lemes em âmbito nacional e internacional, com a divulgação da Revista Criticartes e a organização de Antologias.

Aproveitando a agenda

No dia 24, às 19h, realizar-se-á no Hotel do Sesc Atalaia, em Aracaju, a implantação da Academia de Letras do Brasil/Suíça Núcleo Sergipe. Na oportunidade, Rogério Fernandes Lemes será homenageado e empossado, pelo Chancelar Ylvange Tavares, como o primeiro Presidente da ALB/Suíça Núcleo Mato Grosso do Sul.

No dia 11 de maio de 2018, às 17h, acontecem lançamentos simultâneos da II Antologia Internacional Criticartes 2018, em Campo Grande, na Casa de Serjoca (Rua Santa Teresa, 468 – Vila Rosa Pires) e, em Dourados, no Soneto Café. (Rua Camilo Hermelindo da Silva, 820 – Jardim Caramuru). São 93 poetas e escritores do Brasil, Chile, Argentina, Suíça, México e França que compõem a Antologia. Rogério Fernandes Lemes é o Organizador desta obra literária, que tem como homenageado o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade.

Currículo de Rogério Fernandes Lemes

Nasceu em Amambai, MS, no dia 13 de maio de 1976; casado com a poeta Kassia Mariano; é servidor público estadual, formado em Ciências Sociais. Publicou: “Amambai com poesia” (Poemas, 2013); “Subjetividade na pós-modernidade” (Crônicas, 2015); “As aventuras de Nicolas e o robô do espaço” (Literatura infantil, 2017); e “Palavras amontoadas” (Poemas, 2018). É Membro da Academia Douradense de Letras (ADL) e Membro Correspondente da Academia Gloriense de Letras (AGL). É o atual Vice-Presidente da União Brasileira de Escritores em Mato Grosso do Sul (UBE-MS). Idealizador e criador da Revista Criticartes e da Biblio Editora. Organizador da Antologia Criticartes (2017), da Coletânea Mato Grosso do Sul 40 anos (2017) e da II Antologia Internacional Criticartes 2018. Idealizador da Academia Amambaiense de Letras (ACAL).


segunda-feira, 19 de março de 2018

O verdadeiro cordelista

Autoria: Rogério Fernandes Lemes

Há quem diga que o cordel
Só exista no Nordeste.
Fora desse redondel
É cópia e cabra da peste.
Que cordel é nordestino;
Só pode ser genuíno
Se for fruto do agreste.

Me vem um questionamento:
Não posso me apropriar
Deste belo ensinamento;
Dessa arte secular?
O que faz um cordelista?
Se não ser um ativista
Da cultura popular?

Porque tanto estranhamento
E egoísmo no pensar?
É por esse pensamento
Que só faz capenguear.
Mesmo longe do Nordeste
Passando pelo Sudeste,
Não paro de cordelar.

Assim como o nordestino
Eu falo do meu lugar;
Que tem rio cristalino
Onde não pode pescar.
O rio Formoso em Bonito
Reflete o céu infinito,
Que me perco só de olhar.

Que dizer de Manoel
E das coisinhas do chão?
Nós usamos o cordel
Para dar mais expressão;
Divulgar o meu Estado,
Um lugar abençoado,
Que tem Deus no coração.

Se não fosse um cordelista
Homem triste eu seria,
Ou quem sabe um repentista,
Para minha alegria.
Mas o fato é que escrevo;
O cordel é meu enlevo
Vinte e quatro horas por dia.

Certo dia eu conheci;
Já tinha ouvido falar.
Então eu não resisti
E resolvi cordelar.
Comecei quadra fazendo
Sextilha fui aprendendo,
Até a sétima chegar.

Uns diziam que besteira
O negócio de rimar.
Prefiro fazer esteira,
Pois não gosto de pensar.
Só que quando eles ouviam
Muitos deles só sorriam,
Com vontade de escutar.

Verdadeiro cordelista
Escreve aquilo que sente.
Não quer ser exclusivista
Isso o cordel não consente.
Cordel traz interações;
Aproxima regiões
E enaltece nossa gente.

Mas quem é o cordelista?
Me diga, quero saber.
Das letras é alquimista;
Não vive sem escrever.
Escreve verso com rima;
Metrifica ainda por cima,
Coisa linda de se ver.

Eu não nasci no sertão;
Não tive tal privilégio.
Mas amo de coração
E não acho um sacrilégio.
Escrever cordel eu quero;
É meu desejo sincero;
O cordel é meu colégio.

E assim sigo cordelando
Escrevendo cada verso;
Eu levo a vida cantando
No cordel eu vou imerso.
Sei que sou bom cordelista
Me sinto bem ativista,
Neste vasto universo.

Escrevi este cordel
Em forma de brincadeira;
Usei lápis e papel
Pra dizer que é besteira
Dizer que é só nordestino;
Se não for é clandestino,
Pois cordel não tem fronteira.

Cordelistas somos todos,
Do Oiapoque ao Chuí,
Deus me livre dos engodos
Que criticam por aí.
É gaúcho ou nordestino;
Homem velho ou menino;
Cordel também é daqui.

Publicado inicialmente na Revista Criticartes | 1º Trimestre de 2017 / Ano II - nº. 06

quarta-feira, 14 de março de 2018

Uma autora com o sentimento do mundo

Por Ronaldo Cagiano
Imagem: camillasantosdesigner.blogspot.com.br

Em seu novo livro “O avião invisível” (Ed. Ibis Libris, Rio, 2017), Raquel Naveira oferece ao leitor um caleidoscópio de visões e sensações estéticas sobre o mundo e seu tempo, em 78 narrativas que panoramizam sua aguda percepção crítica.
São textos que nos remetem (ou nos fazem resgatar) os tempos de ouros da crônica no Brasil, vertente em que pontificaram, desde os primórdios, mestres como Medeiros e Albuquerque, Machado de Assis e João do Rio, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Carlos de Oliveira, Fernando Sabino e Otto Lara Resende. Raquel abrange ao mesmo tempo o questionador e filosófico, discutindo temas e questões presentes no nosso quotidiano, transcendendo o mero flagrante ou registro dos acontecimentos para inserir-se na categoria de uma narrativa densa e reflexiva sobre tudo que nos cerca, pois nada escapa ao seu sensível radar de arguta observadora da alma e da condição humanas.
Essa obra de Naveira realiza um meticuloso rastreamento do próprio sentido da existência, num itinerário que transita do lírico ao social, do histórico ao geográfico, da literatura à filosofia, do onírico ao mitológico, do tangível pelos olhos ao místico tateado pelo espírito. Enfim, um delicado, sofisticado e poético panorama das re(l)(a)ções da autora com o universo e com as pessoas, suas influências literárias e referências culturais, em que valores e sentimentos são visitados com ternura e expansão espiritual, num movimento de percepção sobre a vida e seus contornos.
Suas crônicas, mais que revelar o homem real e a cidade viva, o ser em transição e a história em mutação, a realidade com suas dores, delícias, sonhos, frustrações e metamorfoses, nesse tempo de tamanha dissolução, de tanta perplexidade, dissolução e paradoxos, é um convite à reflexão e ao desnudamento do humano em suas diversas projeções e representações.
Em cada crônica, Raquel deslinda, como se retirasse palimpsestos, como numa imersão em universos e ambientes desconhecidos, para aclarar outras dimensões, além da geográfica e aparente. Numa interpretação sobre a variada linguagem e os signos que habitam seu inconsciente de escritora e de humanista, vamos encontrar um percurso sobre as ideias e sobre a arte em suas diversas manifestações: do livro ao cinema, da pintura ao teatro, da História à psicologia, da literatura clássica à contemporânea, do seu Pantanal e do seu Mato Grosso à São Paulo, metrópole apressurada que adotou por alguns anos, revisita dos mitos ancestrais que nos habitam aos totens e tradições que constroem identidade e formação. Enfim, um pout pourridelineando a singela aferição de uma observadora atenta às experiências individuais e coletivas e às demandas existenciais, que sabe transformar o corriqueiro e o banal em matéria e circunstância para o refinamento literário, extrai poesia do inaudito, constituindo-se num mergulho nesse mosaico que constitui a nossa crônica diária, povoada de nuances e mistérios, iluminando tudo que aí está e poucos são capazes de captar ou reconhecer suas verdades ou enganos, seja no multifacetado das cidades e dos homens, seja no familiar, no sagrado, no profano, nos pequenos atos heroicos, seja na ação anônima ou silenciosa dos que trabalham na artesania do tecido social, e, ao mesmo tempo, no surreal, insólito e absurdo da nossa própria trajetória, muitas vezes invisível como o avião que dá título ao livro.
“O avião invisível”, como atesta Mafra Carbonieri na apresentação da obra, coloca a autora, sem dúvida e sem favor algum, na galeria dos grandes escritores brasileiros. Sua bibliografia, que contempla um amplo espectro criativo – poesia, crônica, conto, ensaio, crítica, resenhas, seminários, palestras – nada deve aos nomes bafejados pela grande mídia. Esta mídia sempre ausente, silenciosa, negligente e criminosa incensa a mediocridade e valoriza o lixo literário (com suas panelinhas, guetos, grupelhos, máfias, gangues e altares de pseudo-sumidades) em detrimento de verdadeiros escritores – como Raquel – que, com a perícia e ourivesaria dos genuínos estilistas, escrevem sobre o que é essencial e profundo, com um inegável responsabilidade estética e ética, porque sintonizada com os sentimentos e valores universais. A autora contempla em suas crônicas um amplo espectro com a mesma profundidade e senso de investigação, mesmo quando trata de temas que muitas vezes canalizam uma visão mais personalista, o faz com independência crítica, isenção e sem sectarismo, tratando de aspectos que interessam mais a uma discussão dialética que ao maniqueísmo ideológico, como nos temas da religiosidade e da política, por exemplo, fruto de sua versatilidade e do seu modo holístico e eclético de considerar ou manusear os assuntos que lhe são caros.
Essas crônicas radiografam o mundo, o tempo, as pessoas, registro afetivo para perenizar seu sentimento sobre esse mundo em que “a todo momento, tudo muda, cai ao chão, esfacela-se, apodrece, restaura-se, constrói-se, como um mapa decadente sem fim, apagando-se e redesenhando-se continuamente”, mas que só um escritor, um bom escritor como Raquel, detida no essencial e profundo, é capaz de captar e perenizar.
Ao sairmos dessas páginas, temos aquela agradável sensação e o prazer da leitura, pois como diria Mallarmé, “no fundo, o mundo é feito para acabar num belo livro”, como neste “O avião invisível”, de deliciosa viagem entre mundos e instâncias que só a boa literatura é capaz de nos levar, como nos levaram, pelas suas asas, as crônicas de Raquel Naveira.

Incoerente partilha

Michele Valverde
Dourados, MS, Brasil
@: mi-valverde@hotmail.com
Foto: carolinavilanova.com.br

Quando me apresentou o amor,
Eu lhe amei!
Seus sorrisos gratuitos
me faziam rir de volta.
Me dava comida na boca quando eu sequer sabia segurar um talher.
Também pude lhe fazer aviãozinho por não ter mais apetite.
Por tantas vezes escovou meu volumoso e embaraçado cabelo.
Eu tive mais sorte em escovar os seus, poucos e lindos fios brancos!
Passava horas me contando suas histórias,
e eu lia as que escrevo para você!
Quase tudo que me destes eu desejei lhe dar também.
Não estava em meus planos a sua última
“partilha”!
Me deste penosamente tua ausência...
E essa, não saberei lhe devolver.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Força Expedicionária Brasileira


A força das palavras
o sangue e lágrimas
a honra da alma
o silêncio é sua arma...
É o herói da batalha
que lutou pela fala
de quem lhe ataca
com a surdez da navalha
Foi soldado ferido
esperando abrigo
em meio ao vazio
morreram amigos
Sua glória é a pátria
não pedem medalhas
só mostram a áurea
do monte esquecido
Agora são poucos
mas sempre dispostos
a mostrar os seus rostos
a um novo amigo
São olhos de lince
avistam o destino
dos que buscam sem brilho
o velho caminho
a ti em homenagem
de um novo soldado
que ama a pátria
Aprendeu em seu ninho!!!

Poeta Arara Azul

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Pelos olhos de Bernardo

Autoria: Rogério Fernandes Lemes*
Imagem: cdn.psychologytoday.com

Desde pequeno
sentiu no coração,
que as coisas manifestas
eram mais que aparências,
meramente evidências,
do azul na imensidão.

Desde pequeno
sentiu no coração,
e ao sentir-se natureza
compreendeu que sua essência,
na eterna transparência,
era só conexão.

Desde pequeno
sentiu no coração,
que a beleza deste mundo
era sua própria essência,
mais que mera evidência,
de uma grande explosão.

Desde pequeno
sentiu no coração,
que a poeira de uma estrela
e toda sua fluorescência,
era sua própria essência,
nesta inter-relação.

Desde pequeno
sentiu no coração,
que o mesmo ser humano
contempla e destrói as evidências,
de que somos muito mais que aparências,
no infinito universo em expansão.

____________
* O Autor nasceu em Amambai, MS no dia 13 de maio de 1976. Casado. Formado em Ciências Sociais pela UFGD. Publicou “Amambai com poesia” (Poemas, 2013); “Subjetividade na pós-modernidade” (Crônicas, 2015); “Palavras amontoadas” (Poemas, 2017); e, “As aventuras de Nicolas e o robô do espaço” (Literatura infantil, 2017). Membro da Academia Douradense de Letras (ADL) e membro correspondente da Academia Gloriense de Letras (AGL). Atual Vice-Presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-MS). Idealizador e criador da Revista Criticartes. Editor-chefe da Biblio Editora. Organizador da Antologia Criticartes (2017) e da Coletânea Mato Grosso do Sul 40 anos (2017).

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A Salvação

Imagem: http://filhosdafe.blog.br

Uma coroa espinhosa
crava minha fronte
já não sei se vivo,
do cálice o tinto líquido
avermelhado escorre
por entre meus dedos,
pés e mãos se embebedam
em um mistério
que faz pulsar violento
o coração que chora
a dor de muitos
e alcançando a salvação
agita leve a minha alma
como pano ao vento
me elevando ao céu
deitando-me nos braços
do pai.

(Antônio Amaro)

Três vírgula quatro graus na escala Richter

Espetáculo teatral se apresenta em duas sessões em Dourados

Foto: Mariana Arndt
A Companhia Teatral OFIT apresenta no Teatro no Teatro Municipal de Dourados o espetáculo “Três vírgula quatro graus na escala Richter”. O texto inédito, escrito pelo dramaturgo Éder Rodrigues, especialmente para a montagem da Companhia. O 6º espetáculo da Companhia OFIT traz uma linguagem contemporânea, inspirado na estética pós-dramática e pretende fazer uma releitura de temas familiares, sem limitá-los a qualquer conflito específico. Para abordar o assunto, a direção usa a metáfora dos abalos (sísmicos) a que estamos submetidos que na montagem ganham contornos expressivos com forte apelo visual, tanto na estética proposta como para os elementos.

A realização “Três virgula quatro graus na escala Richter” é uma iniciativa da OFIT por meio do Fomento da Secretaria Estadual de Cultura e Cidadania de MS. A peça recebeu o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz em 2015 - cumpriu 04 (quatro) temporadas no Teatro Prosa em Campo Grande. Segundo o diretor, Nill Amaral, “a realização das apresentações tem um efeito positivo para a continuidade da produção que busca cada vez mais aprimorar o trabalho. Com essas apresentações, busca-se um salto de qualidade, um amadurecimento na produção e, também, a liberdade para pesquisar pontos que não seriam conquistados em poucas apresentações, uma vez que, em Mato Grosso do Sul não existe a tradição em temporadas continuadas o que dificulta ajustar pontos em uma obra com poucas apresentações”. Ainda segundo o diretor, “A receptividade do público nas temporadas anteriores, não só contabilizou em quantidade, mas crescimento em cada apresentação e a forte reação que eles têm sobre tema tratado na obra”. 

Sinopse
A senhora Madona toma uma decisão importante que irá mudar o curso das relações estabelecidas no seio familiar. Para não recuar da secular decisão, ela contrata um serviço especializado em despedidas. O que parecia simples e instantâneo, acaba revelando um jogo de representações, papéis e coisas nunca ditas que ameaçam abalar sensivelmente as tradicionais estruturas de nossas certezas. Cada passo dentro dessa casa é um pouco de nossas fragilidades e esquecimentos que desaba.
O Diretor Geral Nill Amaral

Relação entre o real e o ficcional na obra 
O espetáculo “Três virgula quatro graus na escala Richter” tem sua pesquisa centrada sobre as bases do Teatro Performativo, termo cunhado pela canadense Josette Féral. A montagem trabalha em uma zona de fronteira, entre a representação e apresentação, no limiar entre ator e personagem, explorando simultaneidades de ações, fragmentações e a não-linearidade dramatúrgica, evidentemente preservando e cultivando a criação de sentido para o espectador, por meio de uma proposta de dramaturgia complexa e inovadora de Éder Rodrigues, onde a trama aos poucos vai se revelando através do universo de relação da mãe com cada um de seus filhos e com seu marido. O texto abusa de um jogo metafórico/poético e a distância colocada na trama entre o real, o ficcional e o teatral impõe ares surrealistas ao espetáculo e, portanto, o coloca em ligação com o absurdo.

Principais obras da OFIT
Desde sua criação em 2003, a Companhia Oficina de Interpretação Teatral – OFIT tem como foco de desenvolvimento do seu trabalho a pesquisa de linguagens e vias inovadoras, como forma de tencionar e refletir sobre as inquietações e preocupações contemporâneas. A Companhia tem um trabalho contínuo em longo prazo, constrói e forma possibilidades de encontro com o público por meio de suas ações. Sua atuação na cena sul-mato-grossense engloba tanto a montagem de clássicos do teatro como a criação de dramaturgias próprias, interligadas aos anseios do grupo e aos contextos emergentes.

Dentre as suas principais produções, destacam-se: “Três vírgula quatro graus na escala Richter” (2015) de Éder Rodrigues, adaptação da “Gota d' Água” (2012) - a partir do original de Chico Buarque e Paulo Pontes; “A Serpente” (2010), de Nelson Rodrigues; “Fala comigo doce como a chuva” (2011), de Tennessee Williams “No gosto doce e amargo das coisas de que somos feitos”, inspirada na obra de Clarice Lispector (2007) “Adélias” (2004), espetáculo teatral inspirado na obra de Adélia Prado e produzido com as internas do Instituto Penal Feminino Irmã Irma Zorzi. 

Paralelo ao circuito de produções, em 2013, também realizou a “1ª edição da Mostra de Teatro OFIT Cena Contemporânea”, evento que possibilitou a exibição de espetáculos nacionais com diferentes estéticas, e que fortaleceu o intercâmbio entre a cena teatral sul-mato-grossense com outras cidades brasileiras, principalmente com produções da cidade de São Paulo e Rio de Janeiro, regiões apontadas como referência na produção teatral atual.

Elenco
Nádja Mitidiero, Dheime Winter, Leandro Faria, Geraldo Saldanha, Camila Schneider, Aline Calixto
Direção Geral
Fotografia
Mariana Arndt 
Serviço - Espetáculo
“Três vírgulas quatro graus na Escala Richter”
Classificação
12 anos
Local
Teatro Municipal de Dourados 
Data
01 e 02/02/2018 (quinta e sexta)
Horário
20 horas

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A janela secreta

Rogério Fernandes Lemes*
Foto: Fazenda Pacuri. Rogério Fernandes Lemes em 17 de dezembro de 2017.

Uma casa de madeira surgiu das lembranças da família de um homem simples. Depois de muitos anos, a casa onde ele nasceu e cresceu foi toda derrubada. Os pais e alguns irmãos mudaram-se para a cidade. Ele e outro irmão permaneceram na porção de terra que recebeu por herança.

Fez a casinha de madeira com as próprias mãos. Com o resto das madeiras que sobrou de sua antiga casa carregada de lembranças, de risos, de rezas e punições. Praticamente aquelas tábuas e vigas foram testemunhas de sua infância e juventude. Agora foram descartadas e se, o homem nada fizesse, certamente apodreceria ou seriam queimadas em algum fogão de lenha.

Primeiro o homem cavou quatro buracos para firmar os batentes. Depois pregou firmemente as vigas, as tábuas e assentou duas portas. Por fim, o homem afixou o telhado que era, assim como na primeira casa, tabuinhas feitas manualmente de uma madeira conhecida como ipê. Cada tabuinha foi lavrada e esculpida por seu pai. Agora seus filhos o ajudavam.

Sentado sobre a viga principal o homem pediu a cobertura. Os filhos, com os pés no chão, alcançavam as unidades e os pregos. Após várias marteladas no decorrer da manhã, lá estava ela. Pronta. Digna para servir de lar se preciso fosse.

Não havia janela. Não precisava. A casinha era tão baixinha e pequena que bastava abrir uma das portas e tudo clareava.

Por algum tempo aquela casinha serviu para guardar coisas da fazenda. Uma charrete; uma cama com lastros de couro de vaca, onde seu filho mais velho dormiu por alguns anos; duas rodas de carreta de boi; um pilão todo cheio de teias de aranha; apetrechos de montaria e toda sorte de quinquilharia que se possa imaginar.

O homem sempre dizia aos filhos: “quem guarda o que não presta sempre tem o que precisa”.

Tempo depois, uma família de conhecidos de tempos antigos veio prestar serviços ao fazendeiro. Um casal e uns quatro filhos habitaram a casinha. Todos cabiam e viviam felizes. As crianças do casal brincavam com os filhos do fazendeiro dono da terra, da casinha e, por vezes, dos sonhos dos empregados.

Depois de algum tempo aquela família foi-se embora. A casinha retornou à sua serventia primeira. Voltaram-se as rodas de carreta, o velho pilão cheio de teias, a cama de couro do filho mais velho, os apetrechos de montaria, as quinquilharias e a velha charrete.

Os filhos do fazendeiro cresceram andando de charrete. Nas tardes de domingo, a família toda ia até a vendinha, ou ao bolicho, como era conhecida nas redondezas. As crianças criam duas coisas mágicas: caramelos e refrigerantes. E para isso trabalhavam e se comportavam a semana inteira esperando, ansiosamente, sentirem o gosto do açúcar satisfazendo seus cérebros.

Os filhos cresceram, se casaram e tiveram filhos. A casinha continuava lá. Firme. Certo dia, o fazendeiro desapareceu sem nunca mais dar notícias de seu paradeiro. A esposa, os filhos e netos do fazendeiro ficaram desolados. A saudade tornou-se grande e quase insuportável.

Algumas pessoas dizem que viram o fazendeiro minutos antes de desaparecer. Contam que ele estava um pouco triste e resolveu parar de sentir tristeza. Somente ele sabia de uma janela secreta na casinha. Sem contar a ninguém, ele adentrou pela porta menor e nunca mais foi visto desde então.

A janela foi fechada e ninguém mais consegue achá-la. Mas, ela existe. A sogra do fazendeiro, alguns dias depois, achou a janela e também desapareceu.

Contemplando o interior da casinha de madeira, o filho mais velho apenas via a cama de couro, a charrete empoeirada, as duas rodas de carreta e quinquilharias pelo chão. Ele sentiu que a janela existe e que, um dia, todos serão achados por ela.

* Escritor e Vice-Presidente da UBE-MS
Membro da Academia Douradense de Letras
Palestrante da FliBonito 2017

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Natal ou hipocrisia

Fonte: factivel.com.br

Nunca gostei do espírito natalino, e não foram por falta de ceia, presentes, e nem mesmo falta de família. Ou foi... Sei lá! Família nem sempre é harmoniosa, mas nada que uma bela noite de Natal juntos não resolva. E assim é o Natal.
A meu modo de ver e pensar, esta festividade é totalmente artificial, desde as decorações de casa, comércio, ruas, até papai Noel, com aquela vestimenta vermelha e a barba branca. E sua touca? Mais parecendo um coador. Geralmente em cima de carro ou nas calçadas com um saco de balas, seu alvo principal são as crianças.
Observo aquelas pessoas que saem para comprar presentes, com uma falsa felicidade estampada na cara, outros saem falando em ajudar os mais necessitados, surgem as mais variadas campanhas de solidariedade, sorrisos forçados... O trânsito fica intenso, ruas tomadas por irresponsáveis nos volantes e arriscando a vida de outras pessoas. 
Háaaa! Também tem os desapontamentos dos presenteados. Na maioria das vezes, quando vêem os presentes do próximo são atingidos pela cruel desigualdade social. E a tristeza daqueles pais que não podem dar a seus filhos os presentes que eles esperavam. Assim, tudo isso é um abismo de realidade vivida na sociedade em época de Natal.
Hoje saí para dar uma volta pelo comércio, e o encontrei uma colega, esforçando-se além do possível para comprar presentes, não era “um” presente, e, sim vários presentes. Percebi que se afundaria em dívidas apenas para satisfazer uma expectativa forçada, contentar a ansiedade criada em seus filhos, parentes e amigos, tornando-se uma exibição desproporcional das possibilidades financeiras. 
Nesta época festiva, os orfanatos se enchem de presentes, geralmente brinquedos velhos, usados, que são doados pelos conhecidos e famosos “filhinhos de papai”. Os abrigos dos idosos recebem filhos, netos, amigos, enfim todos demonstrando solidariedade. Aos que não sabem, muitos passam fome, enquanto outros estão cheio de “Espírito”, esses que passam fome, também passam frio.
O amor verdadeiro será que existe no coração de cada um? Será que o Natal também significa discriminação de quem pode, sobre os menos favorecidos? É insuportável a falta de humanidade, acompanhada de falsas promessas, solidariedade transformada em obrigação, e nunca de coração. Em alguns casos também seria melhor que trocássemos “Noite de Natal” por “Noite da Hipocrisia”, pelo menos seríamos honestos neste dia... 
O Natal poderia ser mais de esperança e fé. Assim, digo aos sábios. REFLITAAAA! Que o Espírito de Natal não se perca entre o ser humano em apenas vaidade e comemoração. Mas, que seja levado ao verdadeiro significado. As festividades natalinas é algo maior que o poder econômico, é olhar para as pessoas que estão em nossa volta como seres humanos, que esse olhar seja no decorrer do ano, e não apenas no Natal. Que o Natal de cada um de vocês possa ser generoso e fraterno. 


Ana Cláudia Matos Krul é professora, poetisa, graduada em Letras e Literaturas da Língua Portuguesa pela Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD, analista em Metodologia da Língua Portuguesa e acadêmica do curso de Pedagogia da UEMS – Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul. Escreve contos, crônicas e poesias desde a adolescência. Publicou seu primeiro livro de poesias em 2015 participando com outros autores, participação no artigo publicado em 2016 com o tema: “Memorialismo de Mato Grosso do Sul”. Em 2017 foi publicada uma crônica de sua autoria na Antologia Criticartes com outros autores. Poesia publicada na coletânea Mato Grosso do Sul 40 anos pela Criticartes, publica periodicamente no site Recanto das Letras e Revista Criticartes.

Aurineide Alencar recebe o título de Cidadã Douradense



Aurineide Alencar de Freitas Oliveira, nome artístico AURINEIDE ALENCAR nascida em Catolé do Rocha Pb, professora aposentada, na rede estadual de Mato Grosso do Sul. Habilitada para o Magistério de 1º grau. Formada no curso de Letras, Pós-graduada em Metodologias do Ensino Superior, Especialista em Metodologia do Ensino Superior, Especialista em Educação e mestra em Ciência da Educação.
Em 1997 foi transferida da EE Fazenda Itamati no município de Ponta Porã, como professora concursada da rede estadual de ensino para a EE São José em Indápolis, neste município não chegando a assumir as aulas , devido a distancio, assumindo na EE Presidente Tancredo Neves. Dai em diante trabalhei nas escolas EE Vilmar Vieira de Matos, EE Professor Alício de Araújo e EE Professora Floriana Lopes e a última na qual aposentou-se EE Ramona da Silva Pedroso. 

Cidadã douradense

Pensei em algumas palavras
Só para lhe agradecer
Senhora Daniela Hall
Por você me conceder
Esse título valioso
Para mim tão precioso
Pois sempre sonhei em ter.

Mais de 3.000 km
Separa-nos de cidade
Porém uma coisa eu sei
E te digo de verdade
Se hoje meu coração
Bate com tanta emoção
É graças tua bondade.

Mais de 20 anos atrás
Em Dourados eu cheguei
Junto com minha família
Tão logo me apaixonei
Por estas ruas sombrosas
Tão largas e carinhosas
Que nunca mais a deixei.

Para cá vim transferida
Já de outra localidade
Com o cargo de professora
Que tinha estabilidade
Pois em concurso do estado
Funcionário concursado
Pode mudar de cidade.

Eu vi que Dourados tinha
Tudo que eu queria ter
Estudo para os meus filhos
Saúde e também lazer
Uma cidade tão rica
Quem vem a passeio fica
Porque deseja crescer.

Por isso que mostro em verso
A sua rica beleza
Sempre que conto uma historia
Falo com muita firmeza
Em cada palmo de chão
Eu deixo meu coração
Pode ter toda certeza.

Neste Brasil tão gigante
Uma coisa eu vou dizer
Se pra morar eu tivesse
Que uma cidade escolher
Mil vezes eu escolheria
Eu Dourados eu viveria
Sem nunca me arrepender.

Foi o berço dos meus filhos
Agora és de minhas netas
Viverei aqui pra sempre
Pois ainda tenho metas
Tu não me viste crescer
Mas irás me vê morrer
Deixando marcas concretas.

Autora: Aurineide Alencar, 12/12/17

Carlinhos, José e eu

Rogério Fernandes Lemes*
Fonte: poesiafilosoficablog.files.wordpress.com

Da última vez que estive com Carlinhos comentei sobre um de seus poemas, o “Privilégio do mar”. Ele demonstrou certa indiferença e continuou, inerte, a contemplar o concreto armado dos imponentes e corroídos edifícios à sua frente.

Talvez fosse melhor virar-se e contemplar o mar Carlinhos, disse a ele. Você perde de ver as pessoas em suas zonas de conforto banhando-se na fétida praia da solidão. Estão bem atrás de você e, por vezes, causam-lhe estragos. A última insanidade custou vinte e cinco mil ao erário público no conserto de seus quadrados óculos.

O poeta continuava imóvel, sem dizer uma só palavra. Não era birra e nem mesmo indelicadeza. Era sensibilidade com miséria humana. Dali, a uns duzentos metros, ele contemplava “mil corpos labutando em mil compartimentos iguais” alheios, quem sabe, à existência dos horrores de um conflito mundial.

Ele não estava em um terraço confortável. Estava era pegando gripe, ao relento. Sol, chuva, maresia, ventos alísios e, vandalismo. Com todas essas mazelas pontuadas Carlinhos, se quer, ousou declamar. Seu silêncio era tão igual aos corpos que bem cervejas do alto de seus edifícios.

Dei de costas a Carlinhos e contemplei a infâmia do mundo. E agora, José? E agora, Carlinhos? Poderá o homem salvar-se de si mesmo? A indiferença e o altruísmo habitam a mesma casa? Poderia o homem, inconformado com sua mortalidade, atingir o absoluto? A felicidade a qualquer custo? Silêncio.

Apenas o dançar frenético e interminável das ondas às suas costas. Um ou outro aproximaram-se um pouco desconfiados sentindo-se traídos pela ignorância por não saber quem era, quem foi e o que escreveu Carlinhos. Talvez para não perder a viagem e disfarçar suas carobas, aquelas pobres almas registraram seus fantasmas ao lado do metálico, gélido e indiferente Carlinhos.

Continuei a seu lado. Firme e quase inerte como ele. Ambos respirando a brisa do oceano, fatigados pela vida, mas com o privilégio de estar ali, naquele instante, naquele lugar.

Passados alguns minutos percebi uma trégua. Carlinhos espreguiçou-se e me disse: qual é?

Percebi então ser o momento para puxar assunto e falar de coisas irrelevantes. Era um bom começo. Onde você mais gosta de ficar Carlinhos? “Fundeado na baía em frente da cidade”, foi a resposta. Pensando cá, com meus botões, apenas assenti e perguntei-lhe o que ele pensava sobre a vida; sobre tudo. “A vida seria incerta... improvável”... Se? Quis eu saber. “Se houvesse um cruzador louco, fundeado na baía em frente da cidade”.

E eu, um desavisado, pensei que Carlinhos respondia a minha pergunta sobre onde ele gostava de ficar. Foi então que entendi um pouco mais sobre a vida dos poetas. Eles não pedem e nem precisam ser entendidos ou explicados. Carlinhos apenas faz o que nasceu para fazer: ficar vivo entre nós, assim como todos os poetas mortos, que até uma sociedade têm.

Não importa se Carlinhos senta de costa para o mar; se ignora minhas ignorâncias; se suporta pacientemente seus algozes; se contempla a indiferente dos fatigados beberrões. Importa é que Carlinhos vive. Importa é seu privilégio do mar. Importa suas provocações aos Josés e Marias. Importa é que Carlinhos é brasileiros. E ainda que seus vândalos custem mais de cem mil em manutenção de seus quadrados óculos, Carlinhos não desiste nunca. Continua firme como eu. Até quando? Isso não importa, pois existe um vândalo muito pior a caminho e que, ao encontrar uma pobre alma, com sua foice em riste, pergunta: E agora, José? Quem o livrará da ira futura?

* Escritor e Vice-Presidente da UBE-MS
Membro da Academia Douradense de Letras
Palestrante da FliBonito 2017

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A ficção e a distorção da realidade

Fonte: www.cursoderedacao.net

A ficção literária apresenta-se como instrumento na compreensão da realidade, na medida em que deforma suas limitações cotidianas. A produção ficcional não pode ser compreendida como uma mentira, mas como uma distorção da própria realidade ao trabalhar com fatos imaginários. Em outras palavras, a ficção consolida-se na prevalência de fatos imaginários que prevalecem sobre a observação.

Quando uma pessoa faz a opção por ler um romance, por exemplo, ela tem consciência de que interage, fundamentalmente, com fatos imaginários e não fatos históricos. Essa percepção prévia, de que uma história é o resultado da imaginação de alguém sobre suas observações da realidade e suas limitações, torna-se irrelevante do ponto de vista do juízo de valor. A pessoa não está preocupada se os fatos narrados pelo autor são verdadeiros ou não, mas sim, na possibilidade de uma percepção diferente da realidade; em uma possível compreensão da própria condição humana; ou, simplesmente, identificar-se com aquilo que sente, ainda que não possa manifestar publicamente.

 A ficção é o auxílio necessário para que um escritor não tenha limites. A realidade, sim, tem seus limites e, por vezes, frustrantes. A ficção é uma espécie de “imaginação sociológica” proposta por Wright Mills e que, nada mais é, do que um recurso que o sociólogo utiliza para pensar os fatos históricos e os fenômenos sociais e depois voltar à realidade. Para o escritor, a ficção é o recurso ideal na sua produção literária.

Nessa compreensão da ficção como um recurso de distorção da realidade limitada não há mentira. Não a que se falar em mentira quando uma obra é apresentada aos leitores como ficção, fruto da imaginação. A proposta de um escritor em contar uma história não significa que ele falará sobre verdades universais, mas uma caricaturização da realidade que, se bem compreendida, permite-nos pensar e dialogar sobre aspectos essenciais da condição humana.

Para Mario Vargas Llosa, nas ficções não há mentira alguma, porque a ficção não engana o leitor que sabe, previamente, que sua leitura é uma invenção literária que teve como ponto de partida um evento da realidade, mas que foram engenhosamente transformados mediante acréscimos, exageros ou supressões. Verdades e mentiras coabitam um mesmo universo.

Quando pensamos no conto “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe, por exemplo, temos ciência de que é uma história inventada, porém, que retrata comportamentos, sensações e percepções subjetivas do ser humano. Essas deformações da realidade constituem-se como uma das formas de compreensão melhor da realidade. Certos eventos somente serão possíveis através da ficção. Portanto, eis a riqueza e grandeza da ficção literária como um instrumento para conhecer mais a vida ou mesmo entender melhor as relações humanas.

Diferentemente da História ou da Sociologia, a ficção não tem obrigação de dizer a verdade histórica, exceto a verdade literária, essa sim capaz de persuadir e encantar o leitor levando-o a uma profunda reflexão de sua condição e de seu posicionamento no mundo.

A brevidade da vida, por si só, é um fator que limita o ser humano. Ainda que a realidade seja uma bolha que aprisiona as pessoas e seus sonhos, a ficção é mais que uma válvula de escape, é uma espécie quase divina de salvação.

Rogério Fernandes Lemes
Escritor e Vice-Presidente da UBE-MS
Palestrante da FliBonito 2017

terça-feira, 12 de setembro de 2017