terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A teoria do éter, a relatividade de Albert Einstein e a poesia

Por Nena Sarti*
Manipulação das imagens: Rogério Fernandes Lemes
A teoria do éter é o nome dado ao conjunto de ideias produzidas principalmente na segunda metade do século XIX com o objetivo de dar um corpo coeso às teorias físicas existentes até então. Apesar de podermos encontrar traços fortes dessa teoria desde o pensamento de Isaac Newton (1642-1727), foram Hendrik Lorentz (1853-1928) e Henri Poincaré (1854-1912) os cientistas que ficaram conhecidos como autores dessa teoria.
Hoje a teoria do éter é vista como uma abordagem equivocada para os fenômenos naturais. Ela não é mais lecionada ou defendida enquanto teoria física, restando-lhe somente seu grande valor histórico.

Motivação da teoria do éter

No final do século XIX tanto a mecânica de Newton como o eletromagnetismo de Maxwell estavam consolidados enquanto teorias físicas.
Do ponto de vista da mecânica, para todos os observadores que viajam a uma velocidade constante valem as mesmas leis do movimento. Por exemplo, uma moeda lançada no interior de um automóvel descreve o mesmo movimento para o carro em repouso na calçada como para o carro em movimento retilíneo uniforme. Nesse sentido, a mecânica newtoniana não trabalha com observadores privilegiados. Há uma série de observadores equivalentes que percebem a mesma natureza da mesma forma.
Segundo a teoria eletromagnética, uma partícula carregada eletricamente que atravessa um campo magnético sofre a ação de uma força que depende: da carga da partícula, do campo magnético e da velocidade da partícula.
Como a teoria eletromagnética não definia claramente a partir de qual observador essa velocidade deveria ser medida, popularizou-se a existência de um observador privilegiado onde são válidas as leis do eletromagnetismo. Tal observador foi chamado éter.
Para justificar o éter não ter sido descoberto anteriormente foi necessário atribuir a ele algumas propriedades 'mágicas', como, por exemplo, ter densidade nula e preencher todos os espaços vazios - mesmo os intergalácticos.

O Experimento de Michelson Moreley

Em 1881 A. Michelson (1852-1931) encontrou uma forma de medir a velocidade do éter em relação à Terra. O experimento foi aprimorado e repetido em 1887 sem indicar resultados positivos em nenhum dos casos. Ao que tudo indicava, se o éter realmente existe, a natureza se comporta de forma a torná-lo imperceptível.

Hipóteses ad hoc

Como o éter não era detectado por nenhum dos experimentos realizados, a teoria do éter sofreu sucessivos acréscimos. Suas alterações mais significativas foram a hipótese do arrastamento do éter, a hipótese da contração de Lorentz e as transformações de Lorentz. Todas elas apontavam para uma questão simples: Se a natureza se comporta como se o éter não pudesse ser visto, então quais são nossas razões para acreditar na sua existência?
Nos primeiros anos do século XX a teoria do éter já se encontrava enfraquecida e desacreditada por seus próprios idealizadores. Em 1905 Albert Einstein inaugurou o que hoje conhecemos por teoria da relatividade restrita. Por essa nova teoria, o éter foi definitivamente abandonado e banido dos currículos.

Categoria: Relatividade

A constante cosmológica (geralmente denotada por lambda maiúsculo Λ) foi proposta por Albert Einstein como uma modificação da teoria original da relatividade geral ao concluir um universo estacionário. Após a descoberta do deslocamento para o vermelho de Hubble e introdução do paradigma do universo em expansão, Einstein abandonou esse conceito. Entretanto, a descoberta de que a expansão do universo ainda está acelerando na década de 1990 renovou o interesse pela constante cosmológica.
A constante cosmológica Λ aparece nas equações de campo modificadas de Einstein na forma:

{\displaystyle R_{\mu \nu }-{\textstyle 1 \over 2}R\,g_{\mu \nu }+\Lambda \,g_{\mu \nu }={8\pi G \over c^{4}}T_{\mu \nu }} R_{\mu \nu} - {\textstyle 1 \over 2}R\,g_{\mu \nu} + \Lambda\,g_{\mu \nu} = {8 \pi G \over c^4} T_{\mu \nu} onde R e g pertencem a estrutura do espaço-tempo, T pertencem a matéria, e G e c são fatores de conversão com o qual surge do uso tradicional de unidades de medida. Quando Λ é zero, ela se reduz a equação de campo original da relatividade. Quando T é zero, a equação de campo descreve um espaço vazio (o vácuo). As unidades de Λ são segundo-2.
A constante cosmológica possui o mesmo efeito de uma densidade de energia intrínseca do vácuo, ρvac. Neste contexto, é comumente definida como fator proporcional a 8π: Λ = 8πρvac, onde conversões modernas da relatividade geral já estão inseridas (do contrário, os fatores G e c também apareceriam).
Fonte: https://pt.wikipedia.org/

Depois dos sessenta, venho querendo aprender coisas novas, ou coisas que sempre existiram e eu não tinha tempo para entendê-las, no caso aqui a teoria do éter (que dizem não existir mais) e a teoria da relatividade de Albert Einstein mais ou menos explicada acima, pois tenho conhecimento que os físicos ainda a estão estudando. Agora, vamos nos ater às orações de Einstein quando ele afirma que: 
“A constante cosmológica Λ aparece nas equações de campo modificadas” “A constante cosmológica possui o mesmo efeito de uma densidade de energia intrínseca do vácuo”.
Agora vamos entender por partes.

Constante

Diz-se do número (quantidade física) que não se altera em todas as fórmulas matemáticas caracterizadas por especificarem determinados fenômenos universais ou certas circunstâncias específicas (fenômenos, propriedades etc.)
Que não sofre alteração; inalterável: o constante balanço do mar.
Em que há continuidade e progressão; progressivo: o constante desenvolvimento das árvores.
Que tende a se repetir de maneira contínua; permanente: o som constante da chuva.
www.dicionarioinformal.com.br/constante/
Frases com a palavra constante:
Fonte: Pensador

Os defeitos da alma são como os ferimentos do corpo; por mais que se cuide de os curar, as cicatrizes aparecem sempre, e estão sob a constante ameaça de se reabrirem.
- François La Rochefoucauld
O homem é assim o árbitro constante de sua própria sorte. Ele pode aliviar o seu suplício ou prolongá-lo indefinidamente. Sua felicidade ou sua desgraça dependem da sua vontade de fazer o bem.
- Allan Kardec

Cosmológica

Cosmologia é o ramo da astronomia que estuda a origem, estrutura e evolução do Universo a partir da aplicação de métodos científicos.
A Cosmologia surge como um ramo da Filosofia que procura explicar a composição do Universo, sua estrutura e evolução. Antes da natural evolução da Filosofia para um campo de conhecimento próprio, o filósofo era um indivíduo que pensava a respeito de muitas coisas, diferente do pensamento filosófico de hoje, que se concentra em estudar a própria Filosofia e não mais em ter um pensamento generalista.
Fonte: http://obviousmag.org/renato_collyer/2015/09/a-origem-do-universo-e-a-filosofia.html#ixzz4ZHre6Nad

Vocês leram o título, correto? Éter, Cosmologia, Filosofia e Poesia têm efeito relativo? Eu digo que sim o tempo todo, constantemente.
E como teorias são discutíveis, deixo o desafio e para tanto transcrevo abaixo um poemeto que fiz em um desses momentos em que estava a observar o cosmos:

Deita em tua cama macia,
Ouça o vento em sussurro,
Veneziana entra em volúpia
Sacode-se em gemidos,
Explode um raio de luz,
Trovões retinam em bigornas.
Você no leito deleita-se.

Estou gostando disso! Nena Sarti/2017.

Breve Currículo 
Nena Sarti (Maria Helena Sarti), 66 anos, casada, brasileira, natural de Passo Fundo-RS. Residente e domiciliada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul desde 1988. Formada em Letras pela Universidade Católica Dom Bosco – UCDB. Seis cursos de Extensão especializados em Literatura e Linguagem poética, certificados pela FUNDAC/MS. Professora de Técnicas de Redação, Língua Portuguesa e Literatura (aposentada). Palestrante em diversos segmentos culturais da Cidade e do Estado. Escritora, poetisa, contista, cronista, atriz performática, oficineira. Ministra pela FUNDAC/MS Oficinas de Literatura e Linguagem poética desde 2006. É Contadora de histórias (Curso de extensão – Grupo Gwaya da UFG). Detentora de mais de 30 prêmios nacionais e internacionais entre poemas e prosas. Atual presidente da Academia de Letras do Brasil – seccional Mato Grosso do Sul.
Contatos:
curiosa75@yahoo.com.br
msarti60@gmail.com
nenasarti61@gmail.com

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

As bromélias e a fera

Por Eliakin Nikaile
Imagem: http://blog.giulianaflores.com.br
Bizungas. Olha o nome do pobre infeliz. Está claro tratar-se de um nome de muito mau gosto. Mas também, vindo daquela laia, o que se pode esperar. Viria algo bom de Samaria? Mas é claro que não.
Não bastasse o nome de péssimo gosto, outra coisa chama a atenção. Aliás, o pobre infeliz quer chamar a atenção. Coloca-se como vítima da sociedade. Onde terá lido tal embuste? Mal sabe o desgraçado que colocar-se como vítima da sociedade é reproduzir uma ideologia barata, sem escrúpulos e ultrapassada. Insistir é brincar com a cara dos tupiniquins.

Mas, não percamos nosso precioso tempo com nome de mau gosto da caterva. Se há uma coisa, inadmissível, é perder tempo com assuntos da caterva. Não aguento ouvir o seguinte: “eu não tenho nada nessa vida. Veio a enchente e eu perdi tudo”. É a coisa mais incoerente e estúpida que já ouvi. Como pode o desgraçado não ter nada e afirmar que perdeu tudo? Um engodo retórico.

Tive que pronunciar tal nome. Pedi-lhe que aparasse minhas bromélias. Mas o adverti. “Corte apenas as pontinhas” pedi. Foi o mesmo que falar com um cão sarnento. O tal do Bizungas parece ter feito por birra e, por gosto ainda por cima.

Dos dezoito pês de bromélias, cinco pereceram pela falta de coordenação fina. Dava dó ver minhas bromélias esturricando no chão já sem vida. Senti vontade de dar-lhe um sopapo. Aliás, vários sopapos. Pensei em dar-lhe um gato morto pela cabeça até fazer miar.

O mais impressionante era aquela cara de aspargo. Pensa em uma pessoa mequetrefe. Com aquela cara de cavalo disse-me: “perdoa patrão pelas fror eu...”. “Bizungas, não é”? Perguntei com tristeza e reservas. Afirmou com a cabeçorra positivamente. Contente-se em apenas assassinar minhas bromélias. Deixe a língua mater em paz.

Sem pobremas patrão”. Nossa. Aquilo só podia ser de propósito.

Pedi-lhe que desistisse e fosse para casa. “Não patrão. Sô brasilero e não desisto nunca”. “Então, já que não desistes sugiro que procure outro ofício, senhor Bizungas”. Para variar, o infeliz pediu-me uma sugestão de onde deveria aventurar-se. Pedi-lhe que se inscrevesse no programa de voluntários da colonização de Marte. “O praneta vermeio”? Quis saber. Assenti positivamente e pedi-lhe para não se atrasar, pois próximo ônibus sairia por aquelas horas.

Frivolidades contemporâneas: a era dos grupos de transmissões, conexões e desconexões

Por Bianca Marafiga*
Desenho: Rogério Fernandes
Quando Bauman marcou um encontro comigo foi extremamente fascinante. Fiquei tão à vontade que lhe ofereci um café e algumas “bobageiras”. Ele automaticamente puxou a cadeira, olhou em meus olhos, me enxergou de verdade! Em meio aquele olhar traçado e cheio de vida me disse: - Sente-se mocinha, agora vamos conversar! Falou do mesmo jeito que a mãe fazia quando queria me fazer entender sobre algum determinado assunto qualquer. Só que agora com doses mais profundas de filosofia. Não que a mãe não tivera, mas com Bauman parecia ser algo bem paternal.
Contei tudo a ele, sobre minhas angustias e meus caminhos. Principalmente que depois que o conheci, passei a lapidar meus pensamentos e sentimentos que antes encontravam-se em estado bruto. Agora sinto-me livre, posso descobrir o mundo através de textos sobre a subjetividade e liquidez contemporânea. Isso é algo que me fascina, principalmente por ser surreal e ao mesmo tempo tão real.
Os dias passaram-se e ele novamente veio ao meu encontro, me presenteando com um de seus livros: Tempos Líquidos. Confesso que fiquei sem graça, ainda não tenho um livro se quer publicado. Mas quis retribuir o presente, restara apenas oferecer-lhe mais algumas “bobageiras”. 
Ele aceitou e continuamos nossa conversa sobre as coisinhas do chão. Foi aí que apresentei Manoel de Barros e contei sobre as coisas simples eu que tanto amava. Mas isso fica para a próxima estória, disse a ele. Naquele momento eu estava mesmo interessada em saber mais sobre a liquidez. Tentei explicar o pouco que sabia sobre a tal “coisa liquida”, e ele até parecia satisfeito com o que ouviu.
Depois que ele regressou ao seu país, ficamos alguns dias sem falar-nos. Porém aquele conhecimento ainda estava vivo em algum lugar dentro de mim. Mas foi em uma manhã de sol, através de um “porta-voz” de Bauman (codinome inventado só em meus pensamentos) que tudo ficou ainda mais claro. As letras tomaram voz, e foi aí que pude perceber que não estava sozinha diante dos meus pensamentos “bizarros”. Tudo ficou mais claro, como uma fenda cósmica que rasga o céu. 
Agora, além dos livros de que já havia lido, conheci alguém que também compartilha dos meus pensamentos. Me senti humana, afinal essas pessoas existem! Foi neste incrível momento que realmente percebi a infinidade dentro de minha finitude. Na verdade, não sei bem como isso se chama, talvez a língua portuguesa chame de oximoro e a filosofia de subjetividade. Mas o nome pouco importa o importante mesmo é o seu significado. 
De uns tempos para cá Bauman, seu porta-voz e tantos outros só tem me ensinado a refletir ainda mais sobre a vida. Não sei se é bom ou ruim, mas às vezes acho que penso demais a ponto de doer os neurônios. Dizem que às vezes é bom parar e entrar na “caixa do nada” conforme alguns psicanalistas dizem existir. Mas acho que não a tenho, minha única caixa é a de “bobageiras”. Aliás essa eu sei bem onde está!
Já me disseram que preciso ser mais sociável, sair mais, gostar de baladinhas e até ousaram me julgar por produzir reações aversivas a certos tipos de diálogos sem sentidos como: “você viu como a fulana está gorda? E aquele tom de cabelo é horrível”. Tem gente que valoriza mais a marca de roupa que usa do que seu próprio corpo. Mas a boa notícia é que caráter ainda não tem etiqueta. Peço que não me julguem, eu até que sou legal!
Bauman, agora sabe de tudo e não que seja fofoqueira, mas contei a ele sobre o ocorrido nos últimos tempos. Inclusive que me chamaram de louca. Mas quem, não é? Vivendo neste mundo onde se tem 2856 amigos “fecebookeanos” e nem 10 reais? Fico a refletir sobre essa pressa, falta de tempo e vontade de fazer tudo. 
Contei também sobre aquele dia que me inseriram em um grupo de WhatsApp. Desses que o bom dia é decorado e que te chamam de “amiga” sem ao menos saber seu sobrenome. E para piorar a situação, caso você não retribua com outra mensagem “bonitinha” cheia de flores encantadas, certamente vão dizer que você é antissocial.
Sabem o que ele me disse? Que “vivemos o fim do futuro”. É, pode ser isso mesmo, talvez porque também destruímos o nosso presente. Mas essa resposta confesso, não saiu da minha cabeça, foi Noah Harari quem contou. 
É inegável o quanto a tecnologia tem contribuído para que as pessoas distantes possam se reaproximar, e sim eu acredito nos benefícios que ela traz. Acontece que muitas vezes todos esses recursos são ilusórios, despertam nada além de confusão mental. Outro dia pedi para os participantes do meu grupo virtual que nos encontrássemos pessoalmente para discutir a pauta de projetos futuros. A resposta foi categórica: “não pode ser por aqui”? Como assim? Quer dizer que deixamos de ser importantes a ponto de não mais haver necessidade de contato humano? Será que sermos vistos e enxergar para além de ver é só uma questão de tempo? Quer saber? Ninguém mais estará lá se uma mensagem de grupo resolver. 
A minha amizade com o generoso Bauman já estava bem sólida, então resolvi escrever a ele e contar mais das minhas indagações e reflexões. De saúde debilitada, agora não podíamos nos ver pessoalmente. Mas escrevi com riqueza de detalhes, e contei que já houve momentos em que pedi um encontro face-a-face para contar uma novidade conquistada e fui trocada pela frivolidade moderna. Por meia dúzia de “palminhas”, uma “carinha com olhos apaixonados” e “fogos que explodem confetes no ar”. Expliquei da minha tristeza em não ver a reação, o tom de voz e/ou não receber um caloroso abraço. 
Disse também sobre a dor que foi ser negada quando precisei ser ouvida das coisas da alma e talvez do coração. Na verdade, ainda não sei muito bem como chamar isso, e talvez nem tenha um nome! Mas relatei que me senti péssima em dizer a pureza de tudo que sentia, e em troca receber uma única resposta: uma “carinha triste” e frases pela metade acompanhadas de dezenas de “macacos envergonhados”. Lamentável! Foi e é terrível todos os dias.
Mas confesso, já respondi alguém com um milhão de “carinhas gargalhando” enquanto revirava os olhos com tanta bestialidade. Mas na verdade Bauman sabe, não gosto dessas carinhas e pouco faço uso delas. Deve ser porque ainda acredito no poder das palavras, porque mesmo não sendo uma escritora renomada, e sem um livro sequer publicado, gosto de me reconhecer naquilo que pouco escrevo. Finalizei a carta pedindo desculpas pela extensão do texto, mas se assim não fosse as minhas “loucuras” poderiam consumir-se de minh’alma. 
Fiquei feliz quando recebi sua resposta que dizia: “Loucos são apenas os significados não compartilhados. A loucura não é loucura quando compartilhada”. E assim continuei com minhas escritas para ele, que se tornara agora meu único e meu melhor amigo.
Desta vez meus escritos se pautaram no quanto considerava lamentável palavras digitadas, pois quase sempre são mal interpretadas. Nelas não reconhecemos quem está do outro lado, diferentemente de uma carta escrita à mão. É algo único e mágico, assim como era com ele. 
Nas cartas somos capazes de sentir as letras e suas formas. Aliás letras bonitas me encantam, me fazem viajar por entre as linhas. E mesmo que a minha não seja assim tão bonita ainda me arrisco a escrever de vez em quando.
Não deixei de contar que neste fim de ano recebi um bombardeio de felicitações sobre o ano que entraria. Confesso que fiquei feliz por perceber que tantos se lembraram da minha existência. Mas fiquei “meio” abalada porque quase ninguém ligou, ouviu minha voz ou sentiu meu coração. 
Mas pior ainda foi perceber que a grande maioria dessas pessoas devem ter criado um grupo de transmissão para que não desperdiçassem seus preciosos tempos escrevendo meia dúzia de palavras que expressassem realmente o que sentem. Sinceramente não há sentido em grupo de transmissão, pelo menos não para mim. Exceto se for uma mensagem objetiva de trabalho. Não há nada mais desagradável do que receber uma mensagem assim, te coloca em uma condição banal e simplificada. Além disso, sabemos quando se trata de uma mensagem deste tipo, mesmo quando não falamos.
Estas ferramentas nos “obriga” a responder algo que não foi pensado nós. Transformando-nos em meros números sem expressão alguma. Há ainda quem diga a famosa frase: “se de dez um responder, estou no lucro”! Podemos considerar isso como a mais completa banalização humana. E isso sim, veio da minha cabeça!
Já com pequenos calos nas mãos, continuei a carta dizendo que acredito que existam diversos fatores pós-modernos que implicam e explicam essa realidade. A falta de tempo, os acúmulos de atividades, as cobranças profissionais, objetivos e metas, por exemplo, explicam por vezes a tecnologia ter crescido de forma tão ascendente. Porém, está longe de ser eficiente. Isto porque, ela te jurou que teria todas as pessoas e informações na palma de sua mão. Ledo engano!
Concluindo deixei a seguinte pergunta: O que temos feito com tudo isso? De que forma estamos administrando nossas relações sociais? E novamente comentei sobre essa minha angustia de entender o que não se pode entender. 
Desta vez as respostas demoravam cada vez mais para chegar. Talvez por sua condição de saúde. Mas em um dia nublado lá estava um envelope, e o remetente era Zygmunt Bauman. Ao abrir segurei o papel firmemente e me esforcei para ler aquela letra tremula e linda. O conteúdo era grandioso, sensível e dizia: “As pessoas seguem a correnteza, obedecendo às suas rotinas diárias e antecipadamente resignadas diante da impossibilidade de mudá-la, e acima de tudo convencidas da irrelevância e ineficácia de suas ações ou de sua recusa em agir”. E ainda completou: “A internet e o Facebook nos tranquilizam e nos dão a sensação de proteção e abrigo, afastando o medo inconsciente de sermos abandonados”. 
Mas também me alertou para o quanto as redes sociais podem ser enganadoras. Descobri então porque algumas pessoas insistem em “jogar” as outras em uma pasta perdida ou até mesmo em sua lixeira (a fim de recuperá-la caso sua lista esteja indisponível). Ou então quando sente que seu disco rígido está cheio, a tecla “delete” entra em ação como se seres humanos fossem dados disponíveis em softwares.
Fico pensando nesses filmes de ficção cientifica, onde a robótica assume o papel de humanos talvez não esteja muito longe de acontecer. Já nos alerta Noah Harari, de que a próxima evolução da espécie humana talvez seja de homo sapiens para homo Deus. Será que nossos sentimentos também serão mecanizados?
Essas indagações estarão sempre vivas em meu coração. Embora no dia 09-01-2017, tenha recebido a triste notícia que meu melhor amigo havia falecido. Mesmo assim, sei que estará vivo em meu coração. Seus escritos jamais serão esquecidos principalmente porque dentro da minha caixa de “bobageiras” ele deixou um recado escondido dentro de um marshmallow. “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”.
Jamais esquecerei esta reflexão, e ainda sonho com o dia em que seres humanos possam formatar também seus corações. Retirem de vez esse vírus chamado liquidez que assola as relações. 
Espero que todos possam entender o que meu grande amigo sempre quis dizer. Que amores, amizades e sentimentos não pedem “likes”, não são tendências, são essências.
Bauman, jamais te esquecerei! (B.M)

* Bióloga
Especialista em Educação e Gestão Ambiental
Mestre em Biologia Geral/Bioprospecção

Surpresa

Leila Rodrigues Teles
Aracaju, SE, Brasil
Aliel_teles@hotmail.com
Foto: Arquivo pessoal.

O sétimo sinônimo de tédio
Pratos a mesa sinalizam o não dito
Desculpa para o afeto!
Imensurável...
O amor é o remédio do que se revela.

BIOGRAFIA
Psicóloga, Especialista em Psicologia Hospitalar, Servidrora Pública do município de Nossa Senhora da Glória. Em meados de 2015 participou da Oficina de Criação Literária promovida pelo Sindiserve Glória em parceria com a Associação Cultural Sertão na Arte, cujo facilitador, Ramon Diego, poeta de Nossa Senhora da Glória, foi principal responsável pelo despertar de um olhar e sentir que vão além do que se é. O rascunhar desse processo de escrita levou a aspirante a poeta, ter seu primeiro poema publicado na primeira edição do zine confeccionado pela Associação Sertão na Arte de Nossa Senhora da Glória (2015), posteriormente na I Antologia Poética de Sergipe (2015), no I Encontro Sertanejo de Escritores (2016), na 2ª Edição da antologia: A glória das letras no sertão de palavras (2016) , no 3º Encontro de Escritores Canindeenses e Convidados (2016) e recentemente na Revista Criticartes 2017/1.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Autobiografia

Sylvia Cesco

Mulher do Mato:
Puro desacato
No ato
Se lhe cortam as asas
Ou lhe interrompem o voo

Mulher do Mato:
Guavirosa e guavireira
Gente-bicho cerradeira
Mãe da Lua parideira
Filha de cheiros verdes

Desassombrada semente
Farpa de arame não a prende
Mourões não a silenciam
Nem lhe tiram o pólen
Nem o vento a engole
Visto ser ventania

Mulher do Mato:
Menina
Que o Tempo não desatina.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

O seu lado do muro poder ser sua muralha intelectual

Por Bianca Marafiga*
Imagem: http://blog.mercadrone.com.br

Por que o medo de residir em cima do muro? Por que precisamos decidir pelo sim ou pelo não? Transitar por entre caminhos de direita ou esquerda? Ou então decidir por ser ou não ser? Pois é, “EIS A QUESTÃO” já dizia Shakespeare.
Há um dito popular que diz “quem vive em cima do muro é gato”. Partindo desse pressuposto, talvez felinos tenham muito a nos ensinar. Isto porque, diante da contemporaneidade de um mundo onde as falácias “facebookeanas” se alastram como um vírus mortífero, estar sob o muro ainda seja uma opção sadia.
Vivemos em uma sociedade moldada pelas decisões e implicações do imediatismo, se não pensarmos rápido perdemos os prazos, oportunidades, capitais e até mesmo as relações sociais. Ou seja, o pensamento reflexivo torna-se no mundo atual um artigo de luxo. Não decidir o seu lado do muro torna-nos ignorantes e fracos.
Estar indeciso em determinados momentos e não posicionar-se diante de uma discussão, não reflete a incapacidade intelectual. Pelo contrário, pode ser promissor, principalmente porque seres humanos tem a capacidade de enxergar os dois lados da moeda, encontrando coerência em ambos ou em nenhum. Mas para isso é preciso entender que por vezes dois ou mais posicionamentos podem fazer sentido a ponto de completar-se.
Aristóteles nos ensina que a “dúvida é o princípio da sabedoria”. Portanto as convicções plenas podem ser arriscadas, uma vez que o equilíbrio é o centro da plenitude humana.
Ora! Por que eu devo pensar que sempre há uma única verdade absoluta? Seria no mínimo incoerente não desfrutar de uma espiadela por cima de um muro alto. Se ele existe porque ignorá-lo?
Na filosofia moderna podemos considerar o relativismo cético, que consiste em desconsiderar a existência de uma verdade objetiva e muito menos absoluta. Por isso defender algo com totais convicções pode ser no mínimo arriscado e limitante. E mesmo que esta seja uma escolha em grupo, não podemos desconsiderar que o coletivo também pode errar tanto quando o individual.
A falta de relativismo retira toda a subjetividade humana, excluindo as possibilidades de novos conhecimentos e abertura para o novo. Isto se dá na intolerância política e social, podendo ocorrer nos mais diversos âmbitos. Seja uma “filosofia de bar” ou dentro de uma universidade. Aliás uma reflexão importante: intelectuais também podem excluir o relativismo, adotando medidas descabíeis, levantando bandeiras da intolerância, manipulando consciências e formando opiniões em massas de manobra. O que infelizmente é mais comum do que se pensa.
A obra de Nietzsche intitulada como “A Gaia Ciência” nos ensina a possiblidade de um novo infinito, ou seja, "o mundo para nós tornou-se novamente infinito no sentido de que não podemos negar a possibilidade de se prestar a uma infinidade de interpretações". Ter um lado por vezes é perigoso e irracional demonstrando muitas vezes a falta de conhecimento e amplitude das diversas vertentes ideológicas.
Obviamente que não devemos excluir nossos posicionamentos, mas que eles estejam pautados nas diversas observações não descartando nenhuma posição. Pois já dizia machado de Assis: “a arte de viver é tirar o maior bem de todo o mal”.
Talvez seja preferível viver em cima do muro distribuindo flores para ambos os lados ao invés de estar de um dos lados ateando bombas compostas pelo ódio gratuito e falácias destrutivas. Estar sob o muro pode ser uma forma de libertação e amplidão dos fatos.
Pois as situações podem ser transitórias, mas as relações não precisam assim ser.

* Bióloga
Especialista em Educação e Gestão Ambiental
Mestre em Biologia Geral/Bioprospecção

O Pequeno Príncipe e eu

Por Rogério Fernandes Lemes*
Imagem: http://s2.glbimg.com

Desde que li “O pequeno príncipe” associei Antoine de Saint-Exupéry ao meu avô materno. Não sei o porquê dessa associação, mas nunca mais esqueci da estória e nem do meu avô.

Toda vez que lembro do pequeno príncipe sinto uma sensação estranha. Uma espécie de “poder criador”.

É como se levasse meu avô e sua realidade de vida para aquele deserto. Meu avô, com toda aquela calma, parece consertar o avião e assim sobrevoarmos as pradarias, os vales ou as planícies de um mundo só nosso, surreal.

Não conto a ninguém essa besteira que sinto ao associar meu avô materno à estória do pequeno príncipe. Primeiro porque acho que ela não é importante, do ponto de vista da Literatura. Mas então, lembro-me que a Literatura é, por definição, ficção, criação que nos remetem a sensações extra-sensoriais.

Em segundo lugar, por não acreditar em minha capacidade como autor. Me vejo impostor e, por esse motivo, não falo nada, apenas escrevo. Apenas o silêncio e minha sensação estranha de ver meu avô, um quase veterano da Segunda Guerra Mundial, consertando o avião de Saint-Exupéry somados ao ringir da caneta sobre o papel, ou dos estalos delicados das teclas do computador.

Como dizem as amigas da minha filha: “Cara, isso é muito louco”.

Sinceramente não entendo muito os adolescentes. Não sei se “muito louco” é uma deficiência cognitiva e intelectual da pouca idade a respeito das coisas ou se, realmente, essa sensação que sinto é algo muito louco.

De qualquer forma, quando meu avô materno faleceu senti que ele, de fato, havia consertado o avião. Só que ele foi sem mim.

Há quase três anos espero seu regresso. Nenhum sinal nos céus; nem um ronco de avião. Nada.
Hoje tudo faz sentido. A estória, o avião, o pequeno príncipe, meu avô e eu.

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Autor do livro Subjetividade na Pós-modernidade, 2015.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Entrevista com Davi Roballo

Por Rogério Fernandes Lemes
Foto: Arquivo pessoal.
CriticArtes: Em seu livro “Ensaios de outros escritos”, no artigo “A vida pede passagem”, você afirma que a vida não é bela e que depende de cada um de nós se esforçar para torná-la melhor. Essa negação, que é mais filosófica do que ideológica, o que tem a nos dizer além do meramente evidente?

Davi Roballo: Em uma visão racional quanto ao concreto, se torna um tanto difícil ver beleza total na vida, pois nesse aspecto reina absolutamente a indiferença da natureza. Acredito que esse belo, esse idílio estético que atribuímos a existência não passa de um embuste que nosso inconsciente nos aplica para que não percebamos, por exemplo: o horror que é a cadeia alimentar entre os seres vivos. Se a vida fosse bela e não o caos pela sobrevivência que é, os humanos não precisariam em hipótese alguma consumir partes de cadáveres de outros animais, sim, cadáveres, pois é isso que nos vendem nos açougues e posteriormente preparamos nas panelas. Se fossemos aqui enumerar outros aspectos ficaríamos a falar sem parar, entre eles, a fome e a miséria no Mundo.
Realmente minha opinião é de que cabe a nós a responsabilidade de construirmos nossa felicidade, com a consciência de que devido ao caos do mundo ela jamais poderá ser integral, mas uma felicidade fragmentada, pois em nossas relações vivemos nos chocando ao outro e esses choques trazem em si consequências que alteram nosso espírito de humor.
Quanto a beleza em si, acredito ser muito relativa, pois segundo Voltaire se pudéssemos perguntar a um sapo o que é a beleza, ele responderia: é a sapa.

CriticArtes: Fale um pouco sobre as “influências exteriores” que governam o mundo e que, segundo suas afirmações, fundamentam-se na falsidade, na incoerência e em uma injustiça transvestida de justiça. Podemos encontrar algo de bom neste mundo físico segundo a perspectiva roballiana?

Davi Roballo: A problemática toda referente às influências exteriores, decorre do fato de estarmos destituídos de nós mesmos, há muito perdemos o controle de nossas ações, pois a grande maioria de nossas escolhas e decisões está calcada em um status quo pré-programado, isto é, somos totalmente influenciados pela moda, pela indústria cultural, pela mídia e pelo desvirtuamento dos valores, éticos, morais, intelectuais e religiosos. 
Nossas relações sociais, profissionais e etc. vivem imersas nos lodos da ambição, do egoísmo, da vaidade e outras feras que habitam o homem. Não fosse isso, a justiça, por exemplo, seria equânime e igual a todos, no entanto, sabemos que não é bem assim. As instituições e as leis são perfeitas, o problema está no homem imperfeito e corrompível que as opera. 
Há muita coisa boa no mundo sim, existem pessoas que não se deixaram comprometer por completo pelas novas tendências de o Ego triunfar sobre as decisões e escolhas. Essas pessoas conseguem viver na simplicidade sem o supérfluo, amando e respeitando o outro.

CriticArtes: Você diz que é preferível adaptarmos a verdade e falarmos dela com sinceridade, justamente para não destruirmos as relações sociais. Falarmos meias verdades não cairia por terra a busca do ente pelo “sê tu mesmo”?

Davi Roballo: Para justificar meu pensamento posso sugestionar que o leitor passe uma semana falando a verdade pura, sem rodeios, sem máscaras, somente a verdade, o que pensa e o que vê sobre os cônjuges, os filhos, os colegas, patrões, vizinhos e depois me diga como ficou seus relacionamentos sem adaptar a verdade.
Quanto a busca do ente pelo “sê tu mesmo”, como ficou evidente em texto que trato disso em “Ensaios e outros escritos”, minha opinião é de que isso é impossível, tanto da forma genética, quanto moral, ética e intelectual, pois para isso teríamos de ser um ser único, tudo o que não somos, pois somos sujeitos compostos de experiências alheias. Para sermos, dependemos de nossos pais e antepassados de quem herdamos segundo Vigotski a cultura e as tradições. Não bastasse isso, na vida vamos somando e doando conhecimentos, em uma troca que nos torna sujeitos multifacetados. Portanto é impossível alcançar a independência total e exclusiva do ser. Ele esta fisgado aos valores, morais, históricos e éticos da sociedade da qual ele emerge para a vida. No entanto, essa busca é uma das utopias que nos mantém nos trilhos da vida, é inalcançável, mas apontam para algum lugar, nos faz caminhar.
Quanto a verdade, se formos expô-la nua e crua em nossas relações em pouco tempo seremos silenciosamente banidos dos redutos sociais.

CriticArtes: No texto Confinamento sobre as metáforas da fazenda, em especial sobre as “caminhadas”, que significam o estudo contínuo, imparcial e desapaixonado. O que isso significa na vida de um escritor?

Davi Roballo: O escritor tem uma responsabilidade social muito grande ao repassar conhecimentos absorvidos de outros escritores, para isso, o aprendizado é contínuo, para escrever ele terá ler, de reciclar e atualizar seus conhecimentos. Além da responsabilidade do repasse de conhecimentos, tem ainda de lutar contra seu Ego de forma a não cair na cilada de pensar e agir de forma muito aquém do que realmente ele é. A imparcialidade e a forma desapaixonada são importantes para que o escritor não crie ou defenda as aparentes verdades absolutas, mas que tenha consciência de que tudo é superável, nada é fechado, nada é absoluto.

CriticArtes: Você é recorrente a Nitzsche, Le Bon e Rubem Alves para advertir sobre a importância de optarmos por um bom livro que, assim como nosso alimento, “a leitura errada traz consequências”. O que seria uma leitura errada e onde poderíamos observar a consequência dessa indigestão na formação do cidadão crítico, autônomo e emancipado?

Davi Roballo: A nossa história está repleta de exemplos de interpretações e leituras erradas, mas podemos destacar o caso de alguns grupos islâmicos que interpretam o Alcorão a bel prazer, segundo seus interesses de domínio deixando como consequência a morte de milhares de inocentes.
Outro exemplo são os livros de cunho ideológico, que de uma forma acovardada direcionam-se a conquistar e a arrebanhar jovens e adolescentes para suas fileiras, aproveitando-se dos períodos de conflitos existenciais em que os mesmos estão vivenciando em busca de uma identidade e de uma autoafirmação. 

CriticArtes: “Não somos livres, nem mesmo em nossas mais íntimas atitudes e decisões”. Na sua concepção, isso é algo aplicável a todas as pessoas como forma de regra geral, ou o “outro”, conforme nos fala Borges estaria imune, sendo somente ele, a única possibilidade de liberdade? Em outras palavras, isso também se aplica ao escritor?

Davi Roballo: Acredito que a liberdade seja a maior de nossas utopias, estamos sempre caminhando em direção a ela, mas não a alcançaremos. Não há como sermos livres até mesmo em nossas escolhas, ou seja, queiramos ou não, nossas decisões levam a assinatura de nossos pais, professores, colegas, amigos entre outras pessoas, que nos constituíram, que trocaram de experiências conosco. Somos constituídos de outros porque não aprendemos a caminhar, falar, escrever, ler e etc. sozinhos.
Se tratando do escritor essa liberdade é ainda mais difícil, pois quanto mais ler mais constituído fica. É certo que, quanto mais experiências e conhecimentos obtivermos, menos liberdade se acerca de nós, no entanto, mais aumenta nosso desejo em obtê-la.

CriticArtes: Na percepção roballiana em “Sobre a Liberdade”, a sociedade encontra-se em uma “escravidão coletiva e inconsciente”, que a torna ávida por status e consumo. Qual sua avaliação sobre a contracultura como alternativa de liberdade?

Davi Roballo: É trocar seis por meia dúzia, o sujeito sai de uma escravidão silenciosa e sistemática para adentrar em uma escravidão ideológica, talvez ainda pior. Não há como sermos livres, a liberdade é uma utopia que nos faz caminhar. Parafraseando Mario Quintana, a utopia é como as estrelas que estão cintilantes no céu e inalcançáveis as nossas mãos, mas na época anterior a invenção da bússola apontava direções a serem seguidas pelos navegadores. Almejamos a liberdade como forma de darmos sentido a nossa própria existência.

CriticArtes: Levando em consideração sua defesa de que o “inferno são os outros”, em uma clara inspiração em Sartre e que, por esse motivo, sempre esperamos o reconhecimento das pessoas por aquilo que fazemos que, na verdade, é uma reprodução de um conjunto de eventos e forças exteriores a nós que, desde a tenra infância aprendemos, incorporamos e reproduzimos muitas vezes de forma impensada o que, de fato, alimenta a nossa alma?

Davi Roballo: Parafraseando Sartre, o inferno são os outros, porque são eles que pisoteiam, cospem e alfinetam nosso Ego. Acredito que todos nós, alguns mais, outros menos buscamos uma autoafirmação na vida, uma determinada aceitação por onde transitamos e isso decorre de uma necessidade de nos convencermos que existimos.
Para isso, passamos praticamente a vida toda buscando preencher nosso vazio na vã tentativa de obter o todo, no entanto traçamos rotas totalmente opostas, quanto mais adquirimos bens materiais e status, mais vazios ficamos. Isso decorre por não termos ainda assimilado que o nada é a soma do todo e o todo por sua vez a soma do nada.
Parece estranho, mas o vazio só é preenchido com o nada. A grande sandice está em desejar preencher o não palpável com bens materiais, pois o psiquismo, a alma, tem sede e fome de sabedoria e desapego, virtudes que segundo Osho, desaguam no nada. O que alimenta saudavelmente nossa alma, sem dúvidas é a sabedoria e a busca pelo desapego, através da moderação do Ego.


Entrevista com Giani Torres

Por Rogério Fernandes Lemes
“a fazedora de música”
Foto: Arquivo pessoal.
Nossa convidada desta edição é a cantora e, segundo ela, “fazedora de música”. Gentilmente, Giani Torres aceitou nossa solicitação para uma entrevista, com muito bom humor. Nascida em Ivinhema, interior de Mato Grosso do Sul, hoje douradense de coração, gravou seu primeiro disco autoral em 2011, o álbum “Pra Falar de Coisas Simples”. Em 2013 lança seu primeiro DVD, por meio dos Editais de Financiamento à Cultura do Estado de Mato Grosso do Sul e do Município de Dourados-MS. “Como Bolhas, Água e Sabão” Giani canta coisas simples e registra momentos de show ao vivo, imagens do estúdio de gravação e produção de seu segundo disco, além da produção de quatro videoclipes. Com data não definida, em 2016 participará da temporada Som na Concha que acontecerá em Campo Grande-MS e será o lançamento oficial de seu segundo disco.

CriticArtes: Giani Torres, primeiramente nossos agradecimentos em aceitar ser nossa entrevistada. Conte-nos um pouco sobre o seu lado de artista.

Giani Torres: Eu que agradeço a oportunidade, poder falar do meu trabalho é sempre um grande prazer. Bem, eu sou o que chamam de artista tardia, acho uma grande bobagem esses rótulos e definições, enfim, “dar nome” a coisas que você desconhece é quase sempre inútil, mas vamos lá, acho que há tempos havia uma artista encubada em mim, tímida e talvez insegura, só que chega uma hora na vida que você não consegue mais fugir de você mesmo e foi isso que aconteceu comigo depois de vencer o Festival Sesi Música em 2009 e 2010 com minhas canções, desde então, venho descobrindo a cada dia, a cada novo trabalho, essa artista em construção. Não frequento os palcos desde criancinha, mas já tenho a certeza que é em cima deles que eu quero ficar. 

CriticArtes: Sobre seu primeiro DVD, quais foram os principais desafios artísticos e quais os fatores que você pontua como positivos.

Giani Torres: O principal desafio foi tentar fazer um trabalho honesto e profissional com pouco dinheiro e pouca experiência. Posso afirmar que das minhas empreitadas essa foi de longe a mais trabalhosa. Nesse DVD eu fui roteirista, produtora, cantora, um pouco atriz, porque o videoclipe te exige isso e essa parte eu detestei, no vídeo sou tão expressiva quanto um pedaço de madeira, isso já não ocorreu com as imagens do show ao vivo, ali é a emoção que aflora naturalmente, por isso eu até relevo as caras e bocas (risos). Mas de positivo foi ver que no final, pelo menos dentro da minha proposta modesta, deu tudo certo, legal também é constatar o quanto a junção da imagem e do áudio são mágicos, uma excelente ferramenta de divulgação. 

CriticArtes: Fale-nos um pouco sobre “Finita Água”, a canção que a revelou no mundo artístico.

Giani Torres: “Finita Água” foi uma das minhas primeiras composições, acho que a compus no final da década de 90 e isso é muito revelador (risos), ficou um tempão guardada, cheguei a gravá-la em estúdio na época, mas só para registro mesmo, a versão era totalmente outra, até que em 2009 eu resolvi inscrevê-la no Festival Sesi de música inédita, achava a música a cara do festival e foi ela quem me deu a alegria de dar meus primeiros passos na carreira profissional, vencer um festival com uma música minha foi bastante motivador, uma vozinha me disse: “ vai lá menina, agora mostra as outras”.

CriticArtes: Em 2011 você lançou seu primeiro disco autoral. Esse trabalho foi bem recebido pelo público?

Giani Torres: Para minha grata surpresa “Pra Falar de Coisas Simples” foi muito bem recebido pelo público, principalmente pelo público douradense, isso meio que quebrou essa coisa de que “santo de casa não faz milagre”, quando me apresento nesta cidade posso sentir as boas energias da plateia, essa gente daqui me deu muito, tenho que fazer muitas músicas pra tentar retribuir. Além da boa receptividade do disco aqui, o álbum foi bastante tocado nas FMs de Campo Grande, selecionado para o Prêmio da Música Brasileira ao lado de grandes nomes, pude lançá-lo também nos maiores eventos artísticos do Estado, foi uma alegria só!

CriticArtes: Você é interprete e compositora? O que é mais fácil? Existe uma diferença entre cantar e compor?

Giani Torres: Pra mim nada é fácil! Cantar exige bem mais de mim, a pouca estrada é algo que pesa muito pra uma cantora, principalmente quando se inicia em grandes palcos, aí a coisa complica, são muitos os fatores envolvidos. Como intérprete, o que vem me ajudando muito e de forma prazerosa é participar dos trabalhos de outros artistas, como no projeto do instrumentista Simão Gandhy no espetáculo “Tem Guitarra no Samba” e no espetáculo “Encantares” do poeta e compositor Emmanuel Marinho em parceria com o produtor Paulo Lepetit, participei dos shows aqui em Dourados, em São Paulo e no Rio, foi uma baita escola pra mim, isso tudo no ano passado (2015). Compor é mais minha praia, não que seja fácil, mas é algo que eu faço na minha intimidade, minha exposição só vem depois da música gravada, o momento da composição é unicamente meu, sinto-me livre e plena quando estou compondo, mas ainda sou só uma “fazedora de música”, tenho que trabalhar muito pra chegar ao posto de compositor, venho me esforçando pra compreender a ciência da música, sua técnica, estou estudando harmonia e faço aulas de violão com o Simão, até então era tudo muito empírico, na base do erro e do acerto.

CriticArtes: Como foi essa parceria com o Zeca Baleiro?

Giani Torres: Pura sorte! A estrela brilhou, não havia nada programado, durante as gravações, o produtor do disco Adriano Magoo que também trabalha com o Zeca, achou “Princesa da Janela” a cara dele, ligou pro Zeca e propôs a participação, o Zeca gostou da música e prontamente aceitou o convite, o cara além de genial é generoso, acho que minha sorte residiu aí. 

CriticArtes: Como você vê o cenário musical atual no Brasil?

Giani Torres: O cenário musical de massa é lastimável e parece que o mau gosto não tem limites. Tento identificar nesse cenário quem são os culpados, acredito que o artista tem sim sua parcela de culpa, ele é facilmente seduzido pelos altos cachês e se esquecem do compromisso com a arte, mas pra mim o principal vilão é o mercado, falo de quem produz e vende, são verdadeiros vampiros, sugam o que podem e já saem em busca de outro “protótipo de sucesso”, por isso que a porcaria não tem fim, esses artistas do momento são produzidos em escala industrial e quase que instantaneamente. O público não tem culpa, pois é só isso que é oferecido de forma ostensiva a ele, não existem alternativas capazes de “brigar” com esse mercado milionário, logo, aquilo que há de bom na música brasileira, e tem muita coisa boa, fica escondido, não é de fácil acesso. Atualmente, pra se conhecer um bom trabalho, um artista que traz uma nova proposta musical, é necessário ser pesquisador, sim, este tipo de cultura não vai chegar à casa das pessoas pela TV nem pelas rádios, mas como cultivar nas pessoas o hábito da busca pelo desconhecido? Situação difícil, mas como disse, existem trabalhos maravilhosos nesse país, artistas fantásticos, pra ficar mais fácil, é só começar a pesquisa pelo nosso Estado, tenho muitos ídolos por aqui.

CriticArtes: Qual a diferença marcante entre seus dois discos?

Giani Torres: Acredito que o primeiro seja mais delicado, minimalista, já o segundo, “Como Bolhas, Água e Sabão” é mais visceral, rítmico, apresenta uma cantora mais técnica, mas essas definições são sempre vagas, quiçá equivocadas, quem sabe mesmo dos discos é o público que os ouve e aprecia, minha única preocupação com meus discos é ouvi-los e me enxergar neles, fazer tudo diferente e continuar exatamente a mesma na essência, acho que é isso que quero, acho que é disso que gosto. Muito obrigada Rogério por esta entrevista. Muito obrigada a toda equipe da Revista CriticArtes. Sucesso. Grande abraço!

Giani Torres e Zeca Baleiro em Princesa da Janela
Canal: matogrossodoSom

Entrevista com Cléo Busatto

Por Rogério Fernandes Lemes
“a artista da palavra”
Foto: Arquivo pessoal.
CriticArtes: Primeiramente Cléo, se me permite assim chamá-la, em nome da Revista Criticartes e de seus leitores, gostaríamos de te agradecer por ter aceitado nos conceder esta entrevista. Muito obrigado. Uma pergunta que não pode faltar em toda entrevista. Quem é Cléo Busatto? E por que o título de “a artista da palavra”?

Cléo Busatto: Cléo Busatto é uma encantada pela vida e pela sua vocação, a lida com a palavra. Eu elegi a palavra como ponte de ligação com o mundo. Sou uma contadora de histórias. Eu as materializo por meio da voz, da escrita e dos 0 e 1 do meio digital. Eu e a palavra sempre fomos boas amigas. Comecei a falar antes de ter um ano. Li aos três anos e meio. Convivi com alguns contadores na infância, como minha tia. Ela nos encantava e assombrava, nas noites que dormíamos na sua casa. Venho de uma cultura rural, onde a oralidade é soberana. Eu cresci ouvindo as pessoas contarem histórias. As mulheres que se avizinhavam da minha casa de infância, fossem parentes ou não traziam histórias das suas casas e da sua comunidade. Contavam sobre a vida e a morte. Sobre o amor, filhos. Contavam sobre cheiros e sabores. Já os homens que circulavam pelo comércio do meu pai, traziam histórias masculinas. Narravam feitos heroicos, brigas, disputas, nelas estavam presente a coragem, valentia, ousadia. Isso foi muito significativo na minha formação. Veja só, a palavra sempre esteve presente. Nasci sobre o signo de Mercúrio, o mensageiro dos deuses, a personificação da comunicação. Eu não poderia ser outra coisa senão uma artista, ou quem sabe, uma artesã da palavra.

CriticArtes: Você tem um currículo brilhante, sobretudo, como narradora oral atingindo um público de mais de cem mil pessoas. Qual a importância dessa modalidade artística na formação de crianças e adolescentes?

Cléo Busatto: As histórias são necessárias à formação do ser humano. Histórias são seres fundantes que carregam inúmeras possibilidades. Por meio da fantasia as histórias promovem o reconhecimento dos afetos, despertam as potencialidades que se encontram caladas dentro de nós. A partir delas podemos nos reconhecer, nos identificar, nos situar no mundo. E a narração oral, por meio da voz do contador de histórias, que é o porta-voz dos sentidos, dos significados, é uma forma de fazer com que as histórias cheguem até nós, de um jeito poético, mítico. O tempo das histórias é circular e contínuo, contrapondo-se ao ritmo estabelecido pela contemporaneidade, fragmentado e disperso. 
Quando se conta uma história da tradição, a voz do narrador encurta a distância entre os povos. Ao lançar uma história deste gênero aos ouvintes, ativamos o pensamento mítico, a alma do mundo, e iniciamos a construção de uma cultura de paz. 

CriticArtes: Você caminha entre a produção teórica e a artística, sendo mais de vinte obras publicadas. Suas obras artísticas seriam uma forma de compilação da sua produção teórica?

Cléo Busatto: Não. Minha escrita ficcional não faz conexão com a produção teórica, nem poderia. São olhares distintos.

CriticArtes: Faremos um exercício mental. Suponhamos que daqui cinquenta anos sua obra seja objeto de estudo de mestrandos e doutorandos. Para que não cometessem equívocos ao estudá-la, qual seria o fio condutor para uma compreensão acertada de sua obra como um todo?

Cléo Busatto: Pergunta difícil. Eu deixarei esta questão para que os pesquisadores descubram estas pontas e puxem o fio verdadeiro para tecer um olhar sobre a minha obra.

CriticArtes: Quantos livros publicados? Qual é o de sua preferência e por quê?

Cléo Busatto: 22 livros. Sem preferências. Sabe aquela história da gente perguntar à mãe qual o seu filho preferido? Ela vai dizer que não há preferido. Digo o mesmo, cada um tem seu encanto, por que todos revelam meu espírito. Cada um no seu tempo.

CriticArtes: Seu último livro “A fofa do terceiro andar” é uma obra voltada para qual público? Qual a mensagem que a Fofa apresenta e quais os temas tratados?

Cléo Busatto: Em A Fofa do Terceiro Andar (Galera Júnior) a personagem é adolescente, mas o livro toca qualquer mulher que tenha dentro de si uma adolescente, ainda que não despertada ou já adormecida. Em uma narrativa que se assemelha a uma conversa íntima, o livro apresenta o diário de Ana, uma jovem perdida em meio a relacionamentos, problemas de autoestima e bullying. Aos poucos a personagem redescobre o mundo à sua volta, livrando-se de excessos e preconceitos. Adolescência é um tempo de dúvidas, coragem e desafios, e estas características tão marcantes desta fase da vida é o fio condutor do romance. O livro é uma espécie de escrita de iniciação, uma conversa por meio da qual a personagem vai se vendo e lendo o mundo à sua volta. Enquanto escrevia, trouxe minha adolescente à tona e entendi melhor esta fase, onde a coragem, a ousadia e as dúvidas estão sempre presentes na autora.

CriticArtes: Conte-nos sobre as oficinas e palestras que você ministra.

Cléo Busatto: Este segmento faz parte da atuação do meu ser educadora. Tanto as palestras quanto as oficinas têm a palavra como fio condutor. Veja os temas: 1. A leitura literária - promoção e formação de mediadores. Contar e encantar – pequenos segredos da narrativa. A arte de contar história no século XXI. Um olhar transdisciplinar para a arte de contar histórias. A oralidade nos anos iniciais. A literatura é o ponto de partida para estas reflexões. Considero que o texto literário, com seu poder simbólico, alimenta o imaginário do sujeito e favorece o acesso ao mundo interno do sujeito e suas representações. Em todas as ações refletimos sobre leitura e construção dos sentidos. Sobre os caminhos percorridos pela arte de contar histórias, da beira do fogo ao teclado do computador. Pensamos como as histórias influem na formação do ser humano e atuam como um treino dos sentidos e sentimentos. O que a palavra diz sobre a arte de nos tornarmos humanos. 

CriticArtes: Há poucos dias você postou no Facebook sua indignação com a internet: a “terra de ninguém”, nas suas palavras. Fale um pouco sobre os impactos da internet na literatura brasileira e de que forma ela pode ser uma aliada, tanto para autores, quanto para os leitores.

Cléo Busatto: Quando digo que internet virou uma terra de ninguém, me refiro à falta de ética que se procede na rede. Apropriações indevidas e divulgação do texto, como se ele fosse uma produção espontânea, alheia a um criador que pensou horas sobre a sua produção. Nada contra as linguagens e os suportes, mas tudo contra a maneira com que nos apropriamos deles. As tecnologias de informação e comunicação são importantes e vieram para ficar. Através delas acessamos o conteúdo do mundo. A pergunta é: que conteúdo é este? Não podemos perder os critérios que qualificam nossa busca. Com a literatura não é diferente. Os aplicativos disponíveis para divulgar aquilo que se produz são muitos, mas a qualidade do que se produz é baixa. Vivemos uma overdose de produção literária. Equivocamo-nos ao pensar que qualquer texto publicado num wattpad (a maior comunidade de leitores e escritores do mundo), por exemplo, tem literariedade. Por outro lado, as redes sociais são ferramentas valiosas para o autor se comunicar com o leitor. Elas nos permitem retornos imediatos para analisar a recepção do texto. As conversas praticadas nos blogs literários, com leitores escrevendo ou falando suas opiniões, discutindo o texto são saudáveis e necessárias. Creio que isto pode enriquecer a produção do autor, por que o leitor ficou próximo dele. Não precisamos mais esperar pelos eventos literários para encontrá-lo. Diariamente eu converso com inúmeros leitores, que apresentam suas opiniões sobre o que escrevo. Isto é um norte para mim. 

CriticArtes: Você começou a escrever muito jovem e não parou mais. Quais os projetos para o futuro dentro da literatura?

Cléo Busatto: Escrever, escrever e escrever. Ficção.

CriticArtes: Qual sua concepção sobre a publicação digital? Teria o mesmo valor de uma publicação tradicional?

Cléo Busatto: Se tiver qualidade sim. Esta pergunta vai ao encontro de uma pergunta acima. Não vejo conflito com o meio e sim com a qualidade. Os aplicativos disponíveis para divulgar aquilo que se produz são muitos, mas a qualidade do que se produz é baixa. Vivemos uma overdose de produção literária. Equivocamo-nos ao pensar que qualquer texto publicado num wattpad, por exemplo, tem literariedade. 

CriticArtes: A criação de seus personagens tem influência a partir de suas experiências pessoais? No caso da Fofa do terceiro andar, é possível conhecermos um pouco da autora através da leitura do livro?

Cléo Busatto: Toda a minha obra está fundada na minha experiência, ainda que eu não relate a minha experiência. Ou seja, eu não posso falar daquilo que não conheço, logo falo do que vivi, senti. Estes afetos, sensações, descobertas são resultantes de vivências e se transformam em hormônios para os personagens. Seguindo este raciocínio, sempre se conhece um pouco do autor através da sua obra, por que ela carrega traços daquilo que ele é; do seu olhar para o mundo. 

CriticArtes: Como a Fofa do terceiro andar foi recebida entre seus leitores? Acompanhamos, em sua página pessoal no Facebook, alguns comentários elogiando o livro. Você tem recebido depoimentos negativos? E como você administra a crítica negativa?

Cléo Busatto: A Fofa está sendo uma boa surpresa. A aceitação do livro por leitores de 8 a 90, literalmente, me faz acreditar que foi um acerto. Ana é uma personagem, complexa, ampla, contraditória, verdadeira e tem provocado boas críticas. Também li, uma ou duas, que não se identificaram. Paciência. É a opinião do leitor. Não escrevo para agradar o outro, mas para me sentir viva. Escrever é minha cura. Por meio da escritura me revelo; me elaboro. E aqui reside uma identificação com Ana, de A Fofa do Terceiro Andar. Eu tenho 37 cadernos de 200 folhas manuscritos com memórias, sonhos e “pirações”. Brinco, que resolvi parodiar C. G. Jung e o seu “Memória, sonhos e reflexões”.

CriticArtes: Todo autor se depara, inevitavelmente, com a finitude humana. Qual a sua compreensão sobre a morte e a imortalidade de sua obra?

Cléo Busatto: Passei a me dar bem com a morte, quando entendi que ela e a condição da vida. A morte está presente em algumas obras, como “Pedro e o Cruzeiro do Sul” e a “A Fofa do Terceiro Andar”. Algumas pessoas questionaram e ficaram chocadas pelo fato de eu matar personagens. Respondi que a literatura nos ensina e, neste caso, nos faz aceitar a finitude. Já a morte das obras não aceito bem. Sou totalmente contra descatalogar livro. Tenho vivido isto e ando brava. Livro não é um objeto que se usa e joga fora depois de alguns anos. Um bom livro é para sempre. Então, a imortalidade da obra se dará por este leitor que tenha a oportunidade de ter acesso a ela enquanto ela existe. Um dia destes uma leitora da Fofa descobriu que eu sou a autora do Dorminhoco, livro que ela leu anos atrás, no primário. Ficou super emocionada. Não é lindo? Aí, quem ficou emocionada fui eu. Isto é imortalidade da obra.

CriticArtes: Para finalizarmos, o que seria preciso para que o Brasil se torne, a exemplo de países europeus, um grande consumidor de livros?

Cléo Busatto: Para que o Brasil seja um país de leitores deve-se aumentar a divulgação e a promoção do livro, com ações diversificadas, como trabalhos de mediação de leitura na escola, na biblioteca, em casa. Com eventos literários constantes. Aproximação do leitor com o autor e círculo produtor do livro. Acesso ao livro, tanto no sentido físico – mais bibliotecas e lugares onde se possa ler, como econômico, barateando custos. Ler ainda não faz parte do imaginário cultural do brasileiro e, nós, leitores, escritores e mediadores temos um papel importante neste caminho. Fazer com que o livro se torne um objeto de desejo. E mais, devemos fomentar a boa literatura. Não podemos cair na armadilha que serve ler qualquer coisa. A literatura amplia nossa visão do mundo e nos torna pessoas melhores. Mas para isso precisamos de boas histórias, de boa literatura.

CriticArtes: Cléo Busatto, muito obrigado por sua contribuição no fortalecimento da literatura brasileira. Tenha a Revista CriticArtes como uma parceira na divulgação de sua obra literária. Por gentileza, suas considerações finais.

Cléo Busatto: Querido Rogério, foi um prazer dialogar com você neste bate-papo inteligente e desafiador. Abraço e carinho, Cléo.

Mais informações sobre Cléo Busatto:
http://cleobusatto.blogspot.com.br/
http://cleobusatto.com.br/

Shania Twain - From This Moment On

Canal: ShaniaTwainVEVO

Entrevista com Mário Carabajal

Por Rogério Fernandes Lemes
Foto: Arquivo pessoal.

Nesta edição especial, do 1º aniversário da Revista Criticartes, com satisfação apresentamos aos leitores a entrevista com o Dr. Mário Carabajal, fundador da Academia de Letras do Brasil, a 1ª Academia Mundial da Ordem de Platão, em 1º de janeiro de 2001. Com mais de 24 obras publicadas, é especialista em psicossomatologia e pesquisa científica; mestre em relações internacionais; doutor em ciências educacionais; pós-doutor em psiconeurofisiologia e em filosofia. Por uma questão de espaço, deste periódico, os leitores terão acesso ao conteúdo desta entrevista, na íntegra, no sítio da Revista Criticartes em:
www.revistacriticartes.blogspot.com.br

Criticartes: Primeiramente meus agradecimentos mais sinceros por sua aceitação em conceder esta entrevista quando a Revista Criticartes completa seu primeiro ano de existência literária. Iniciaremos por sua vasta obra. Tem algum livro publicado em outro idioma?

Mário Carabajal: Somam 24 livros publicados. Uma exceção, o romance “Amor eterno” (ficção com viagens no tempo), conta com 4 reedições e 40 mil exemplares vendidos. A última se fez em 2015, pela Editora Alternativa de Porto Alegre, prefaciada pelo Diretor Presidente da Alternativa, Editor Milton Pantaleão. Outrossim, alguns foram traduzidos para outros idiomas - inglês, francês e espanhol. Na atualidade, trabalho simultaneamente em aproximados 40 outros títulos. Faltam revisões e o que de mais nobre e sagrado um escritor pode contar, ‘motivação’ – razões que justifiquem suas finalizações e disponibilização ao grande público. Sou muito crítico, melhor, autocrítico. Para validar um novo lançamento, necessito antes convencer-me da importância da obra – de sua contribuição àqueles que virem a ler. Como a vida é um complexo biopsicofísico-sociopolítico, me exijo, mais e mais, dando sempre tudo de mim ‘meu melhor’ na esperança que possa, de fato, me fazer útil nesta conjuntura tão complexa e difícil existencial, ‘humanocultural e civilizadora’ - onde a escrita, comprovadamente, pode significar evolução. Logo,
“escrever é um ato de grande responsabilidade para com os destinos da própria Humanidade”
e sua História coesistencial para com tudo quanto dela dependa à manutenção da vida em harmonia com a natureza e demais espécies.

Criticartes: Fale-nos sobre sua declaração “vivemos uma crise de identidade”.

Mário Carabajal: Tamanha é a dinâmica dos vetores que atuam sobre a vida da Nação, ao ponto de tornar ultrapassada a recente declaração supra. Nos dias atuais de 2016 o Brasil está saindo desta ‘Crise de Identidade’. Por conseguinte, também financeira, provocada pela corrupção desenfreada. Porém, com fortes promessas de reversão, por força da competente atuação, em especial, da Polícia e Justiça Federais. Quaisquer iniciativas de investimentos, como na própria cultura, não ultrapassavam os limites teóricos, sem quaisquer possibilidades reais de evoluírem. Um país tomado pelo medo, criminalidade, corrupção e insegurança. Em nossos dias, mesmo longe ainda de se contar com bons índices internacionais de investimentos, vive-se ‘não mais o ápice da crise’. A conquista da plena consolidação da Identidade de um ‘Brasil Honesto’ e estável politicamente, pronto para receber investimentos internacionais e apto à reversão dos índices negativos educacionais, humanos e sociais, deve ocorrer a partir de movimentos maciços populares, em apoio aos atos de correspondência e assertivas da Polícia e Justiça Federal. Um país onde todas as engrenagens passam a funcionar em harmonia, interdependência e sincronicidade. Nas ciências encontram-se, com margens mínimas de erros, as prioridades a serem aproveitadas pelas instâncias legislativas a um fazer executivo e judiciário sob assertivas de eficiência e celeridade. Prósperas e progressistas, contemplando os segmentos municipais, estaduais, nacionais e mesmo da própria Humanidade. 

Criticartes: Essa crise de identidade afeta diretamente a produção literária?

Mário Carabajal: O Brasil encontra-se no estágio imediatamente seguinte ao observado no ápice da ‘crise’. Evidenciam-se traços de saída e recuperação. Contudo,
“a produção literária tem sofrido suas consequências, com grande impacto e profundas alterações no fazer literocultural”.
Se por um lado as grandes editoras deixaram de investir no escritor brasileiro, por outro, a crise os conduziu a confrontação do que se lhes verdadeiramente importa – retirando o escritor de uma ‘fila de espera’ de contratos extraordinários com grandes editoras, para, confrontado, sustentar-se em sua autovalorização, passando a investir pessoalmente naquilo que acredita e produz – o livro. Particularmente observei reações diametralmente opostas nos escritores. Tanto aqueles que demonstravam se deixar atingir pela crise, desmotivando-se em seu fazer literário, quanto àqueles determinados, obstinados e destemidos, emergindo da ‘crise’ com ânimo e maior autoconfiança, abandonando o ‘mito’ de o escritor depender de um ‘grande nome de editora’ à conquista de seus sublimes ideais. Frente ao ‘abismo’ porque ‘passou’ o Brasil, ergueu-se um escritor com maior foco, consciente e independente, resultando em um aumento percentual dos índices de produção literária. Isto, se considerando o aumento de autores que ingressaram no mercado literocultural brasileiro. Estes, não apenas conscientes, mas com forte determinação em auxiliar o país à superação da crise. Ainda, em consequência da crise, passam a ocupar a lacuna deixada pelas ‘grandes editoras’, novas editoras, em franca ascensão, como a Alternativa de Porto Alegre, Presidida pelo Editor Milton Pantaleão; Life Editora, do Mato Grosso do Sul, Presidida pelo Editor Valter Jeronymo. Mais recentemente, soma-se a este novo perfil editorial brasileiro, a Rede Mídia de Comunicação e Editora Sem Fronteiras, do Rio de Janeiro, sob a Direção Geral e Editorial da competentíssima Jornalista Dyandreia Portugal, identificando-se com este universo consciente de independentes escritores, em uma grande, plausível e progressista parceria, apostando no pensador brasileiro e sua obra. Oportunizando a todo escritor, a visibilidade e propagação do conjunto de sua obra. Todavia, além deste importante momento, deve o escritor focar nas possibilidades de distribuição e comercialização de sua obra, de onde se lhe retornará, com os merecidos lucros, seus investimentos. As múltiplas consultas às editoras garantem ao escritor independente sua satisfação e pleno atendimento de suas expectativas. Em especial, deve o autor independente discutir o ‘preço de capa’ e condições de pagamento, dentro de uma realidade ‘custo/benefício’ de mercado e investimentos. Dedicando especial preocupação com o custo final da obra aos seus leitores. 

Criticartes: Quais os impactos positivos e negativos da Semana da Arte Moderna no Brasil?

Mário Carabajal: Nobre jornalista Fernandes, seu questionamento, mais uma vez, nos remete a Identidade, desta vez, cultural brasileira. O que se busca? Um Brasil voltado exclusivamente para si ou aberto ao Mundo? Há que se respeitar os argumentos daqueles que defendem pontos de vista antagônicos. Quem erra, sob as máximas de ensaios, erros e acertos de sistematização, mesmo em ensaios errôneos postulatórios, objetiva contribuir à evolução média da Nação. Incorporar-se ou não elementos culturais produzidos fora do Brasil, deve precipuamente, em nossa visão, passar antes pela análise crítica do que se define como cultura e sua antítese – a anticultura. Entendendo-se que o conceito de cultura extrapola quaisquer tentativas de limitação, há que se fazer um esforço conjunto para dicotomizar cultura boa e cultura má. Cultura e anticultura. A responsabilidade do Estado limita-se a uma formação obrigatória mínima de nossos jovens. Daí para frente, abandonados, é um verdadeiro ‘salve-se quem puder’. A força do capital e restrição seletiva de horizontes formativos, por outro lado, dá maior ênfase à ‘fugaz corrida de tolos’, em detrimento as reais aspirações dos seres. Logo, tolhidos de seguirem o caminho científico que os realizaria plenamente, para muitos, sem criatividade e competências pessoais, o que passa a importar é a entrada intrépida, desmedida e sem quaisquer pudores de incessantes e ilimitados ‘capitais’. Sobretudo, em um país com tantos exemplos negativos, em especial, àqueles emanados pela classe política, refletindo os ‘transtornos de identidade’ sobre o ser em formação da própria personalidade. Poucos, no entanto, se atrevem apontar objetivamente para a anticultura, independentemente se gerada dentro ou fora de nossas fronteiras. Apontar ‘objetivamente’ para a ‘anticultura’ significa expor-se, ao assumir uma postura. Posicionamento o qual, para àqueles que usurpam da liberdade, é associado à censura. Por ocasião da Semana da Arte Moderna, de um lado aqueles que buscavam por uma identidade cultural própria e genuína para o Brasil. De outro, aqueles que aludiam a um fazer cultural sem fronteiras, incorporando-se o que era também produzido em outros países. Sabidamente havia de se fazer algo em relação ao que ser aceito, incorporado e validado à práxis cultural brasileira. Acredito haverem sido estes os maiores objetivos da Semana da Arte Moderna em 1922: clarificar pontos de desequilíbrio da ‘balança cultural’. A priori, tais objetivos, atingidos ao serem geradas discussões que perduram ainda nos dias atuais. Em nossas análises e visões, de pretensas contribuições, ser brasileiro não se faz excludente à incorporação de culturas internacionais. Contudo, sob um olhar inteligente, crítico e comedido, capaz de otimizar experiências e culturas, independentemente de sua origem e época, livre, contudo, de psicossugestões e induções anticulturais contrárias a natural ordem ‘humanoevolutiva’. Não obstante, aos leitores da Revista Criticartes, dirigida por este exime sociólogo, jornalista e poeta, Rogério Fernandes Lemes, solicito, se escritores, jornalistas, professores e ou cientistas, dedicarem espaço, em suas produções, à análise de ‘letras de músicas’ com poderes psicossugestivos anticulturais, apontando ‘critico-construtivamente’ tais resultados aos seus autores, na esperança que estes, confrontados pelas críticas, redimensionem e redirecionem suas inequívocas capacidades aglutinadoras e conducionais, para tornarem-se ‘artistascidadãos’ do bem, auxiliando na difícil condução de uma imensa população, como a brasileira, com prazerosas e estimulantes produções musicais, em harmonia e equilíbrio com as necessidades humanas de saúde e hábitos saudáveis à construção de personalidades fortes e com perspectivas de longas e saudáveis existências.

Criticartes: Qual sua percepção sobre a ética e a estética na literatura brasileira atual? Teria alguma crítica à produção brasileira?

Mário Carabajal: Ética e estética caminham juntas. Difícil suas desvinculações.
“O bom gosto e os valores contributivos difundidos através dos livros somam-se e ganham forma, a priori, em mentes de escritores com comprovada maturidade humana, política e social”.
Quando de seu distanciamento, a obra encontra naturais obstáculos em meios de maiores exigências. Contudo, não é incomum de obras sem estes valores primordiais serem contempladas como se profícuas fossem. Mas, ainda assim, cumprem relevante papel, ainda que pela formação do hábito da leitura, em leitores principiantes, menos exigentes. Não nos compete criticar a forma e formato como nossos escritores expressam-se. Em especial, por admitir que a produção literária, individualmente, passa por estágios psicomaturacionais de seus autores, desde aquelas sem quaisquer pretensões, traduzindo pulsões, latências e nuances emocionais daqueles que escrevem, as quais são reveladas como autoterapia, iniciando com uma problematização, evoluindo a uma confrontação de conceitos e ideias catexizadas – interiorizadas, pelos contundentes valores axiológicos – externos, conquistando em suas finalizações respostas de equilíbrio e momentâneo bem estar àquele que as produz. Isto, por emergirem a mente a partir de ‘inquietações’ emocionais, atendendo por extensão, aqueles em estágios psicomaturacionais semelhantes, detentores e vivenciadores de momentos experienciais de equivalência ao escritor. Inequivocamente os fatores emocionais sempre estarão presentes e influenciando quaisquer produções literárias, mesmo àquelas científicas. Tudo tem uma origem. Absolutamente nada tem vida própria. A interdependência e atuação ‘dinamicomental’ de todos os seres está para o escritor como o macro para o microcosmo. No universo ou como apontam as teorias mais atuais, universos, não se observa o fenômeno da ação. Tudo é reação. Logo, quaisquer estágios porque passe a dinâmica mental de escrita daqueles que transitam no mundo producente literário, obedece a leis e ordens intrínsecas evolucionais, inerentes a todos os seres. Logo, a ética e estética correspondem ao estágio cultural médio da Nação, demonstrado em intrínsecas amostras de produções literárias, musicais, Leis, prolatações de sentenças judiciais, teses, dissertações, monografias, Estatutos sociais... Atrás da Ética e Estética existem seres, com maiores ou menores domínios, competências e saberes. Por trás dos seres, existem sistemas educacionais, acessos à leitura, organizações culturais e heranças ‘sociofamiliares’ civilizatórias. Sob tais premissas, pode-se enunciar o ensaio de serem, Ética e Estética, fruto da evolução humana, em seus respectivos estágios de correspondências. O Brasil, em nossa análise, conta com fortes elementos, nas pessoas de seus escritores, jornalistas, pesquisadores, professores e profissionais dos mais amplos segmentos, como também de organizações voltadas à cultura, à conquista de níveis de excelência Ética e Estética – veja-se exemplo concreto no jornalista Rogério Fernandes Lemes, ao apontar em seu questionário de entrevista para a Ética e Estética, passando a inferir perspectivas evolucionais no fazer literário de um país gigante como o Brasil. Potencializando a produção literária de qualidade ao inferir referenciais de observância àqueles que escrevem.

Criticartes: Como recebeu a informação do prêmio Nobel de Literatura 2016 ser concedido ao cantor Bob Dylan? É fato que a decisão não agradou e tem gerado muitas críticas.

Mário Carabajal: Bob Dylan enquanto ‘escritor/poeta’ se expressa em composições poéticas musicalizadas altamente críticas. Onde satiriza a cultura americana de exaltação ao espírito patriótico de incentivos à xenofobia, guerra e ódio contra russos, reservando um conceito de Deus aos mais altos propósitos da política americana. Em suas letras, Dylan, soma a seu tempo ao colocar questões como a segregação racial e diversidade. Aponta para a necessidade de uma justiça imparcial, independente da cor da pele. Seria um tanto pretencioso de minha parte escrever sobre a vasta obra de Bob Dylan, merecedor, sem dúvidas, desta Imortal honraria. Particularmente, se Bob Dylan, Adail Maduro Filho (roraimense), Daniel Chaves (paranaense - autor de 5 mil provérbios, superando o próprio Rei Salomão), Fídias Telles (pernambucano), entre outros milhares de eximes escritores, e dentre estes, poetas e compositores de todo o mundo, extremamente críticos para suas épocas, com palavras e filosofias de ordem, humildade, verdade, igualdade, liberdade e fraternidade, são todos dignos de se tornarem referenciais. A priori,
“a crítica maior à Dylan deveu-se ao seu silêncio após ao anúncio oficial de haver sido eleito pela academia para o prêmio Nobel de Literatura 2016”.
Contudo, os seres reagem diferentemente aos estímulos. Diante a morte de um irmão, em passado próximo, não chorei, soando como insensível. Contudo, meu sentimento de perda, ainda hoje permanece. Minha reação a semelhante anúncio, de tamanha magnitude, como o Nobel, sabedor de existirem milhares de outros escritores aos quais admiro e admito com maiores obras, ações e filosofias, também careceria de tempo a sua assimilação. Provavelmente, o sentimento que o ‘travou’ não vibrando e comemorando, tenha sido de ‘vergonha’ e mesmo em respeito aos seus ídolos literários, os quais, em sua provável opinião, seriam os verdadeiros merecedores do Nobel de Literatura/2016. Salve Dylan! Parabéns a academia pela escolha! 

Criticartes: Nesta 5ª edição da Revista Criticartes homenageamos nosso poeta conterrâneo Manoel de Barros. O Senhor teve algum contato ou mesmo influência da poética dele?

Mário Carabajal: O intelectoirreverente pantaneiro, Imortal Manoel de Barros, influenciou a cultura brasileira com seu lirismo, humor e crítica, assim observo, ao rigor gramatical, enquanto literatura popular. Ao fazê-lo, sem receios à crítica, Manoel de Barros lança as bases de um pré-modernismo, mais despojado e comprometido com a mensagem, confrontando a ordem em razão do deleite e prazer da leitura, por assim dizer. Em sua obra ‘Livro Sobre Nada’ com leveza, requinte e sutileza sem precedentes, poesia e prosa unem-se em um ‘eu poético’, tornando-se creio, o momento de maior inspiração de Manoel de Barros, projetando-o definitivamente na História Literária Brasileira. Contudo, como em toda a sua obra, a despretensão ganha lugar irrefutável. Provavelmente por isso seja amado e respeitado em todos os segmentos e tempos da literatura. Manoel de Barros identifica-se com seus leitores ao utilizar-se de ‘realidades’ comuns a todos, demonstrando que a Imortalidade encontra-se lado a lado com a simplicidade e humildade. Querido e saudoso amante da alegria e natureza, com humor e estilo inconfundíveis! Manoel de Barros - um escritor Imortal de obra literária operante e Eterna! Eis um exemplo que inspira e motiva à arte literária! 

Criticartes: Fale-nos um pouco sobre o ideal da fundação da ALB em âmbito global? O que é, de onde vem e o que pretende? 

Mário Carabajal: A Academia de Letras do Brasil - ALB, instituição de integração dos escritores e artífices da Cultura Literária Brasileira e veículo à criação do CONSALB – Conselho Superior das Academias de Letras do Brasil, encontra-se, em 2016, presente no Território Nacional Brasileiro e 19 países. A ALB instala-se oficialmente no início do Terceiro Milênio, com o objetivo de integrar, estimular e valorizar o escritor, a cultura literária brasileira e internacional. Muitas academias, em todo o Brasil, mantem-se alheias, sem manifestarem-se em relação ao Movimento Nacional de Integração das Academias de Letras do Brasil, traduzido pelo CONSALB. Não obstante, nossa proposta de criação do CONSALB, em 1995, resultou no amadurecimento à criação da Academia de Letras do Brasil. Sob o axioma de uma Cultura Ativa, a ALB propõe despertar a consciência política da sociedade. E assim se fez, de forma contundente e ininterrupta, de Norte a Sul do Brasil, desde a sua fundação em janeiro de 2001, até os dias atuais de 2016. A Academia de Letras do Brasil é uma organização de Cultura atípica. Ao contrário das demais academias e entidades culturais, a ALB é uma organização Cultural 'Ativa' Politicamente. Traduzindo-se por esta razão, na Primeira Academia Mundial da Ordem de Platão.
“O 'Grande Sonho' encontra-se no fomento de uma Cultura Literária mais Ativa e menos Telúrica”.
Razão pela qual o escritor do Terceiro Milênio necessita acreditar, sobretudo, na menor fagulha de seus pensamentos. Pois, representam as centelhas que unidas transformarão a vida sobre a Terra. Nossos Pensadores devem, sem nenhum receio, assumirem o rótulo de 'sonhadores'. Pois, a priori, o sonho é aquilo que de mais concreto a humanidade possui. Toda realidade construída pelos seres, por mais concreta que aparente, encontra nos sonhos, suas origens. Nossa contribuição vai desde oferecer espaço para novos autores à geração de projetos que visem a erradicação da pobreza mundial, desarmamento Nuclear, fim das guerras, melhorias na educação, apoio à diversidade cultural e combate à corrupção. Resumidamente, a ALB – Academia de Letras do Brasil nasce em dezembro de 1994, quando sugerimos ao então Presidente da Academia Brasileira de Letras, Imortal Josué Montello, a abertura da ABL ou criação de uma academia brasileira mais representativa, com extensões em seccionais Estaduais e Municipais. Contudo Montello acenou positivamente à segunda proposição, de criação de uma nova organização literária brasileira, admitindo a impossibilidade e dificuldade a um redimensionar estatutário da tradicional Brasileira. Seis anos depois, estávamos com as bases da ALB prontas à conquista de sua Personalidade Jurídica. Isto, em 01 de janeiro de 2001 - a ‘Nova Academia’ de todo escritor brasileiro, com maiores possibilidades integrativas dos pensadores das diversas Regiões de um país com dimensões continentais como o Brasil. Ultrapassando, contudo, nossas expectativas. A ALB passou a receber escritores brasileiros residentes no Brasil e no exterior.
“Os ideais de fundação remetem a uma instituição literocultural com propósitos de servir ao Brasil a partir da práxis literária”, ao incorporar, institucionalmente, o pensamento da ampla maioria dos escritores brasileiros - servindo como referencial a um país em construção da própria identidade. Isto, não apenas sob as bases fundamentais dos pilares elementares do fazer literário estrito, com máximas na língua portuguesa. Mas, em particular, propondo-se unir escritores em torno de uma organização politicamente ativa, suprapartidária, como aspirava Sócrates e Platão. Por um fazer menos telúrico, aproximando o pensamento producente individual, em torno de um centro canalizador polarizante, onde os pensamentos se fundem, apurando-se e retornando à ampliação da extensão paradigmaximizativamente. As Seccionais Estaduais e Municipais devem desenvolver ações ‘literocontributivas’ à institucionalização, a partir dos Planos de Expansões Municipais, onde se encontrem, ao plantio de mudas de árvores frutíferas em canteiros públicos, praças, logradouros, estradas municipais, para que em futuro próximo, números astronômicos de frutas encontrem-se fora das práticas comerciais como objetos de mercado, livres da troca por moedas, ao alcance de um simples estender de braço daqueles acometidos pela fome. Para o emergente alcance das metas, a ALB criou uma diretoria própria, ALB/Humanitária, dirigida pela Primeira Dama da ALB, Imortal, Dra. Dinalva Carabajal – PhI e Embaixadora para o Brasil, da Divine Académie Française des Arts Lettres et Culture (Fundada e dirigida pela Imortal Diva Pavesi). A ALB, mesmo caminhando para o seu décimo sexto ano de fundação e vigésimo segundo de concepção, ainda estrutura-se, perseguindo o ideal de completar-se enquanto entidade literocultural politicamente ativa. Como o faz o nobre confrade, entrevistador, sociólogo e jornalista Fernandes Lemes, ao dar forma e formato à Revista Criticartes, sinalizando à cultura literária brasileira, em questionamentos personalizados daqueles a quem entrevista, não delimitando espaço, em ‘liminar mensagem’ traduzida em incentivo à produção literária brasileira. Transcendendo ao objeto inicial ‘entrevista’, para dar lugar a possibilidades expansionais ‘literodifusionais’ de novas visões. Estas, por excelência, no que se absorve como objeto final da Revista Criticartes, de expectativas paradigmaximizativas e evolucionais, de promessas plausíveis ‘filosofoimplementacionais’ que sinalizem a um novo tempo à literatura. As experiências concretas em Municípios, Regiões, Estados e Países ganham dinamicidade ao encontrarem ‘Presidentes e Representantes’ preparados para a complexa tarefa de conduzirem uma ‘Entidade de Livres Pensadores’ – os quais têm total liberdade de expressarem suas opiniões e resultados de suas análises, sem que o corpo dirigente da ALB lance, sobre os mesmos, quaisquer represálias ou tente limitá-los ou calá-los. Ao contrário, entre as Missões da ALB encontra-se o total e irrestrito apoio - mesmo aos sonhos e ideais mais impossíveis de cada um dos Membros. Sem quaisquer hipocrisias, a ALB não oferece diretrizes ou exige que os Membros acompanhem ou delimitem suas trajetórias, restringindo-as as visões institucionais, como se em ‘algo’ a eles fosse a organização superior. Compete àqueles que representam a ALB, em quaisquer instâncias, colocarem-se nas trajetórias dos escritores Membros como se grandes espelhos fossem refletindo, ao máximo, as manifestas e irradiantes luzes daqueles que integram o ‘Sonho ALB’. A nenhum Presidente, Diretor, Conselheiro, Representante ou Membro, em quaisquer extensões da ALB, se lhe é permitido utilizar o nome da entidade para angariar recursos pessoais. Salvo ‘Patrocínio’ – definido e identificado como tal, de doações espontâneas, sem ‘moedas de trocas’ em forma de títulos ou medalhas, os quais apontem metas claras literoculturais do Membro ou da Organização, sem especulações e vantagens individuais, com prestações de contas públicas e abertas.
“A ALB, como as demais organizações culturais que preservam a Liberdade de Expressão, sofrem distorções internas, com o não entendimento dessa máxima”.
As academias surgem exatamente para oferecerem um meio de paz e tranquilidade, capaz de abrigar Livres Pensadores. A ALB, com foco na Ordem de Platão e de Sócrates por herança - os quais se dedicavam à difusão de uma cultura politicamente ativa, sob máximas da liberdade resultante da aquisição de novas culturas, refuta ao telurismo pragmático corporativista, o qual discrimina, ilude e mantém o poder e status de grupos de intelectuais, pela antevisão ‘precursória’ de serem todos os demais grupos e seres inferiores. Quando em uma só voz os seres unirem-se ao que de fato interessa, respeitando-se mutuamente, sob equivalências isonômicas de contribuições laborais, em prol da saúde e prosperidade indiscriminadamente, encontrar-se-á, a civilização em seu estágio inicial de fraternidade à sincronicidade de exigência a um viver em comunhão, sob a premissa efetiva e assertiva de serem todos os seres iguais. Os pensamentos, sonhos, filosofias e ideais são o que demais concreto os seres possuem. Todas as conquistas e edificações humanas iniciam nos sonhos e pensamentos. São os escritores, aqueles que mais se exercitam na arte de sonhar e pensar criativamente. Logo, a ALB sonha com a produção de livros, poesias e filmes, com efetivo caráter contributivo à condução da humanidade. A partir de visões claras que possam modificar, para melhor, os sistemas e o próprio Mundo.
“O grande sonho da ALB, quando de sua criação, fora reunir os escritores brasileiros em torno de uma entidade que os convida e os incentiva a exporem-se um pouco mais, dedicando parte de suas escritas e competências literárias a possibilidades resolutivas dos grandes problemas Nacionais e Mundiais.”
Imprimindo à escrita, um traço útil, de maior frequência com nosso tempo, realidade e mais comprometida com o futuro da Humanidade. Uma escrita Criticoevolucionista ou Criticomaturacional, denotando compromisso e responsabilidade humana, política e social, em comunhão com os sofrimentos e necessidades humanocivilizatórias. Utilizando-se de pequenas contribuições em análises e geração de alternativas sugestivas e criativas à resolução e equação de problematizações conjuntas sociais. Isto, sem perda da escrita que forma, informa, alegra, inspira e sistematiza. Alimenta a criatividade, acalma, distrai e orienta, também indispensáveis ao equilíbrio e sustentação psicoemocional pessoal e social.

Criticartes: A ALB possui um repositório literário com as obras dos membros para acesso? Existe esse repositório online?

Mário Carabajal: Essa meta compõe também nossos objetivos. Iniciamos esse trabalho. Os autores Membros da ALB enviavam exemplares para o nosso Departamento de Registros Históricos Documentais em Brasília, objetivando-se reunir em uma biblioteca as obras de Membros da ALB. Contudo, após alguns anos, os livros foram doados. A maior possibilidade transformadora de um livro encontra-se em sua disponibilização aos leitores. Assim se fez com todos os livros enviados para o acervo da ALB em Brasília. Atualmente, estuda-se, com um de nossos webdesign do Departamento de Tecnologias da ALB, uma forma facilitada e automática de nossos Membros disponibilizarem suas obras através do Site Oficial da organização. Um mapa mundial deve ser colocado no Site, onde pontos com links apontarão para nossas Seccionais. Ao serem estas acessadas, conduzirão os visitantes à História da Seccional, Diretoria e Membros, seus patronos e obras, inclusive à livraria da ALB, com possibilidades de aquisição das obras.

Criticartes: Em linhas gerais, como está o desenvolvimento da produção literária da ALB em todo o país? Existe uma coletânea ou antologia com a produção dos membros de todo o Brasil?

Mário Carabajal: Isso já aconteceu ou há previsão? Nas bases da filosofia de fundação da ALB, os sonhos ocupam lugar ímpar, preponderante e de supremacia ao demais. Assim, a produção literária da ALB encontra-se em plena e infinita construção. Sonhando-se com uma academia que se faça presente na vida brasileira e mundial por incontáveis anos. Inúmeras antologias foram produzidas a partir de iniciativas de nossos Presidentes, Diretores e Membros, em instâncias Regionais, Estaduais, Municipais e Internacionais. Contudo, somente agora retomou-se a proposta de uma obra, em formato de Coletânea, proposta pelo Imortal Vladimir Cunha Santos, Vice-Presidente da ALB/RS. Em 2015, por ocasião de encontro com um dos Diretores da Editora Alternativa de Porto Alegre, ao participarmos do evento de lançamento de outra antologia pela Alternativa lançada, com preponderância de escritores da ALB/Amazonas, presidida pela escritora, Imortal, Dra. Silvia Carvalho, conseguimos delinear a obra que atenderá integralmente o questionamento levantado pela Revista Criticartes. Trata-se da Coletânea Imortais, de publicação anual, a qual objetiva ampliar a visibilidade dos escritores Membros da ALB. A Coordenação de lançamento da campanha publicitária de adesões elegeu novembro/2016 para difusão do Projeto. Objetiva-se reunir, ano após ano, os aproximados 8.600 Membros, considerando-se 900 jovens ‘escritores potenciais’ identificados por concursos literários escolares ou por indicações de seus professores, fundamentados em trabalhos em sala de aula, no âmbito da Secretaria de Educação do Estado de Roraima, tanto da capital quanto do interior, passando a integrarem, estes jovens, a ALB/Estudantil de Roraima. Projeto este, desenvolvido em conjunto pelas Direções escolares e a Presidência da ALB, dentro das próprias escolas, em atendimento ao Projeto Piloto da ALB. No primeiro volume da Coletânea Imortais, como procedimento usual em antologias, participarão, prioritariamente, Presidentes, escritores Membros e seus convidados, precipuamente aqueles que confirmarem em tempo suas adesões. O volume I contará com não mais de 150 autores, estimando-se máximas 300 páginas, com uma tiragem de 10 mil exemplares. Participam, observem-se, Membros da ALB e Convidados. Logo, os Membros que convidem escritores externos à ALB, estarão paralelamente fazendo suas indicações à Cadeiras Vitalícias nas respectivas instâncias de suas residências. Espera-se uma grande adesão inicial por Presidentes, Diretores e Membros da ALB. Ainda, em resposta ao questionamento da Revista Criticartes, a ALB acredita que todos os seres, independentemente de suas formações, contem com potenciais latentes, prontos a aflorarem, desde que estimulados, como o faz a escritora Imortal, doutora em Filosofia Univérsica, Pérola Bensabath, ao organizar volumes anuais, em regime de coautoria, revelando centenas de excepcionais escritores, sem perda de maior visibilidade também àqueles já consagrados que participam do Movimento Literário Brasileiro Elos Literários. Ou, como o faz a escritora brasileira, Imortal Apolônia Gastaldi, Presidente da ALB/SC – Ibirama e Microrregional do Alto Vale Itajaí – Presidente do Conselho Estadual da ALB/SC e Membro do Conselho Superior Nacional da ALB, ao lado do Professor Doutor, Miguel Simão, Presidente Fundador daquela Seccional Estadual Autônoma, ao fomentarem, orientar e acompanhar produções solo dos escritores Membros, inclusive de escritores ‘crianças, jovens e adolescentes’. A ALB/SC – Ibirama, presidida pela Imortal Apolônia Gastaldi, pelo terceiro ano seguido, em 2016, promove o Terceiro Encontro de Academias, Escritores e Poetas de Santa Catarina. Ainda, como o faz anualmente o escritor Imortal, Dr. Carlos Venttura, com a obra bilíngue A era das palavras, oportunizando visibilidade internacional àqueles que participam desta belíssima e profícua Coletânea. Não obstante, também o escritor Imortal, Dr. Mauro Demarch tem oportunizado grande visibilidade a escritores novos e consagrados, através da Coletânea Encontro de Escritores, reunindo escritores nacionais e internacionais. Também a ALB/Brasília – DF, sob a presidência da Imortal, Dra. Vânia Diniz, tem produzido anuários e antologias. Agora, busca-se reunir os Membros da ALB na obra que se traduzirá no pensamento da organização, sob o sugestivo título designativo de seus Membros ‘Imortais’, estendendo-se aos escritores ‘Convidados’ por nossos confrades e confreiras.

Criticartes: O que é ser um poeta verdadeiramente? Qualquer pessoa que faz versos é um poeta?

Mário Carabajal: Em meu ver e entender, sem a pretensão de encerrar a questão, ser poeta, não significa escrever versos bem ou mal. O verso deve expressar sentimento e sensibilidade. Também exige uma mensagem que resulte em evolução do ser, sociedade, humanidade, harmonizando-o com a natureza.
“Ser poeta denota uma condição de vida, esta, no comportamento, no humor, na forma encontrada à resolução de problemas. Ser poeta, em minha ‘pretensa’ análise, ultrapassa os limites das palavras, ganhando significado mesmo em um traço, um ângulo, uma curva”.
Um pensamento! Uma contemplação! Um simples sorrir ou olhar, puro, com ódio, envergonhado ou de altivez. O poeta pode não ser humano, como um movimento de galhos, folhas ou ondas do mar. Está no som, textura. Necessitando, tais instâncias surreais do ‘Ser Poeta’, serem capitadas e decodificadas em linguagem poética convencional. Ser poeta pode ultrapassar limites e delimitações, regras e convenções. Na poesia a própria matéria, astros e animais se comunicam, jamais são sacrificados e até mesmo falam através do autor. Cantos se calam para dar lugar a simples sons em poesias expressos pelo ar. Ser Poeta, humano, de livro na mão, em comunhão com a gramática e academia, sem críticas e ironia, aplausos! O poeta é todo ser que utiliza a forma poética, em versos, observadas a beleza e a estética, para transmitir suas análises da natureza e impressões emocionais, em todo seu esplendor, espanto e admiração, dúvidas e conclusões, alegrias e tristezas, amor e ódio, anseios, medos, saudades... O verdadeiro poeta vive sua poesia. Admiro e respeito muito os poetas, por se fazerem a própria expressão ‘pura, sábia e artística’ da luz do pensamento emotivo humano. No entanto, atrevo-me aconselhá-los serem um pouco menos rigorosos consigo. Isto, por observar-se nos poetas, um desgaste pessoal muito profundo, como resultado de vidas e mentes que se entregam e se consomem pela própria arte poética e exercício reflexivo filosófico. 

Criticartes: Quais foram os autores que o influenciaram em sua produção literária?

Mário Carabajal: Quando criança, eu lia tudo o que encontrava. Mas foi Olavo Bilac, aos 9 anos, por incentivos da professora Margarida, na quarta série, meu primeiro autor. Minha mamãe (Manuela Cacilda), me presentou posteriormente com um dos livros de Bilac. Contudo, só adquiri o hábito de ler, de fato, salvo livros de disciplinas escolares, aos 17 anos, quando no Rio de Janeiro, na Fortaleza de São João, um grande amigo, tenente Moura, convidou-me para organizar a biblioteca dos oficiais. Livros empilhados e empoeirados, onde ‘sozinho’ sentia-me acompanhado por centenas de autores e suas filosofias. Não conseguia colocar um só livro na prateleira, em sua ordem, sem antes aventurar-me em suas páginas. Isto em 1977. O conhecimento e liberdade, propostos pelos livros, fazem com que os leitores acabem por confrontar e criticar os sistemas, retornando-lhes a ‘força diametralmente oposta’. Mas é a única forma e meio de evolução. Não há evolução sem a otimização da cultura. Salvas aos nossos autores!

Criticartes: Dentre seus livros publicados, quais os gêneros? Existe algum de poemas?

Mário Carabajal: Imortal Rogério Fernandes Lemes, assim o trato por ser o nobre sociólogo e jornalista, também escritor, Membro Vitalício da ALB/MS - somente um entre os meus livros ‘Estado de Espírito’ ganhou traços poéticos. Não! Equivoco-me, também o quinto ‘Em Busca da Evolução’, utilizei-me da poética, para registrar, a priori, o que jamais pretendia publicar, mas por incentivos de amigos, acabei encorajando-me. Isto em 1993, se não me falha a memória! Antes de dormir eu sempre orava/rezava e, por achar muito interessante o que conversava com Deus, passei a registrar tais pensamentos, resultando no livro ‘Orações Filosóficas’. Outra excepcionalidade em minha linha de escrita ocorreu em 1995, quando a partir de um sonho, ao acordar, em um sábado,
“trazia na mente um romance completo, com lugares, épocas, enredo, personagens, protagonistas”
e o mais incompreensivo, interessante e impressionante, o sonho o qual transformei em livro, trazia minha esposa, Dinalva Pereira Barbosa, a qual só conheci/reconheci, identificando-a como a protagonista de meu sonho/livro alguns pouco anos depois, em 2001, confirmando matrimônio em dezembro de 2016, em igreja de Copacabana, no Rio de Janeiro. Este sonho/livro, o qual me apresentou a ‘Mulher da Minha Vida’, comecei a escrevê-lo em um sábado pela manhã, ao acordar, finalizando-o no dia seguinte, domingo à noite, quando coloquei o ponto final. Fora estas três exceções de gêneros literários, os demais livros são técnicos e científicos. Escrevi muito na área de psicanálise. Atualmente trabalho sobre aproximados 40 outros títulos de futuros livros.

Criticartes: Quais os livros que o senhor indicaria para os novos escritores e poetas brasileiros, no sentido dessas leituras contribuírem para o aprimoramento intelectual e artístico, bem para manter e alimentar a musa, tão falada pelo Ray Bradbury, por exemplo. 

Mário Carabajal: O mato-grossense Manoel de Barros ou o alegretense Mário Quintana e o carioca Olávo Bilac, entre uma centena de outros excepcionais escritores de fascinantes obras referenciais, podem auxiliar na formação de valores iniciais dos seres. Estes foram àqueles que mais influência cultural exerceram sobre o meu ser em minha infância. Martha Barros, filha de Manoel de Barros, ilustrou o livro do pai ‘Poeminhas em Língua de Brincar’, de onde, pela união de palavras e ilustrações, resulta em um lindo mundo, atraente e recheado de simbologias para crianças. Bons livros (lidos ou adaptados para a TV e Cinema) moldam e auxiliam na importante formação de valores originais – por serem, após aos ‘mandados parentais – emitidos pela família’, os seguintes a serem interiorizados e validados pelos seres, passando a balizar condutas e comportamentos presentes e futuros de quem os lê ou assiste.
“Um mundo sem maiores distorções e criminalidades, necessariamente, passa pelos humanos e criativos escritores de literatura infantil”.
Os quais, aproximam os iniciantes leitores de um fazer construtivo, consciente e responsável de suas vidas, sob assertivas integradoras e harmônicas com a natureza. Ensinam a contemplar e melhor apreciar o belo, dócil, rústico, humilde e verdadeiro. Revelam às crianças a arte de abstrair ensinamentos de suas experiências, ainda que de difíceis, inóspitas e por vezes dramáticas realidades. Não obstante, os escritores revelam ensinamentos até mesmo pinçados da tragédia. Meio aos atuais responsáveis por esta linda e magistral arte de levar às crianças e adolescentes os verdadeiros valores que dignificam e bem justificam o crescer e expandir horizontes, sonhar e contribuir à edificação de um mundo harmônico, próspero e humano, observam-se efervescentes especialistas, mestres e ‘doutos’ nessa mágica contribuição, como as escritoras Lorena Zago, Apolônia Gastaldi, Arlete e Júlio Cesar Bridon. Também, entre outras joias da ALB, a jovem Membro da ALB/SC – Presidente Getúlio/Mirim, Eduarda Gabriely Bairros, autora de ‘A gatinha de julinha’. Seriam incontáveis os escritores que fazem da literatura uma linda e verdadeira arte de iluminar mentes, irradiar e resgatar vidas, como o Imortal, Dr. Gustavo Dourado, da ALB/DF – o qual defendeu sua dissertação de Mestrado, utilizando-se da forma poética, mesmo abordando o difícil tema ‘Fome no Mundo’.

Criticartes: Para aqueles que desejam fazer parte da ALB quais os critérios a serem atendidos?

Mário Carabajal: Mestres e Doutores não necessitam comprovar serem escritores, por força de suas indispensáveis e obrigatórias produções cientificoliterárias à conquista de tais títulos.
“O principal quesito de ‘imortalidade’ de um escritor é a sua obra”.
Ainda que um escritor conte com o título Imortal, por pertencer a uma academia, poderá outro, sem esse mesmo título, ser imortalizado na perenidade de sua filosofia e obra. Não basta ‘estar’ Imortal. No entanto, por força de uma organização acadêmica, contarão seus Membros com grande atenção sobre suas obras e nomes, pela lembrança e ações acadêmicas, ano após ano, sem jamais cessar. Isto, por assumirem o status natural de Patronos ‘de novas Cadeiras’ quando de suas mortes. Logo, as academias influenciam no reconhecimento público dos escritores ‘imortalizados’ em Cadeiras Vitalícias. Não obstante, em vida, unidos em torno de academias, encontram caminhos e facilidades a uma maior visibilidade de suas obras, com naturais projeções pessoais.
“A academia motiva, incentiva, fomenta e auxilia significativamente à editorialização do que é produzido por seus Membros”.
Tanto pelo natural meio multiliterário ensejar trocas experienciais, quanto pela formação de elos entre autores e editoras, resultando em maiores facilidades de publicação. Os escritores necessitam fazer com que suas obras sejam lidas, propiciando reflexões e profundas mudanças comportamentais, políticas e sociais. Suas teses, ensaios, pesquisas, filosofias e dissertações científicas; e ainda contos, crônicas e poesias necessitam chegar ao grande público. Isto, em nossas visões, traduz-se como o mais importante, ao realizar pessoalmente àquele que produz, além de imprimir maior significado e sentido a sua obra. A conquista de uma Cadeira Vitalícia, em uma organização acadêmica, evidencia encontrar-se o escritor ou escritora que a ocupa, em um avançado estágio em sua carreira literária, devendo, esse importante marco, ser muito comemorado, em especial, por remeter ao escritor profissional, Imortal, pelo desígnio acadêmico. Certamente, isto se constitui em motivo de grande alegria pessoal, familiar e social. A diplomação e posse de um escritor (a) em uma academia de letras, em especial, se entende como o reconhecimento e comprovação pública daquele escritor haver consolidado seu espaço no mundo formal literário. Ou, minimamente, em franco caminho estabilizador do escritor profissional. A ALB, entre outras propostas, coloca-se ao lado de todo escritor à conquista desta nova fase em sua vida. No entanto, a ALB foge aos padrões estilizados apresentados pela Academia Francesa. A História da ALB remete diretamente a Ordem de Platão. Buscando-se na fonte, com o próprio precursor, sem estilizar, os exemplos a que deve a instituição fundamentar-se em sua trajetória e ideais, com propósitos organizacionais, procedimentais, filosóficos e normativos de Identidade Própria, como a não limitação de números de Cadeiras nas Seccionais da ALB ou, analisadas apenas ‘quali-quantitativamente’ a obra dos Membros. Isto, por não haver razões que justifique a distinção entre àqueles que se dedicam à arte de escrever. O escritor que queira aderir à ALB exige-se tão somente comprovar ser escritor. Uma vez comprovado, será o escritor orientado ao processo de diplomação e posse em solenidade oficial da ALB aberta ao público. Vale ressaltar que a ALB não exige quaisquer contribuições mensais ou anuais para a outorga de seus diplomas e medalhas. Quaisquer exigências nesse tocante, em quaisquer instâncias da organização, distorcem e extrapolam os ideais e propósitos institucionais da Academia de Letras do Brasil.

Criticartes: Por gentileza faça suas considerações finais sobre nossa entrevista.

Mário Carabajal: Agradeço com veemência à Revista Criticartes pelo estimulante e motivacional convite.
“A entrevista à Revista Criticartes propiciou-me um grande momento de reflexão sobre a trajetória da Academia de Letras do Brasil, seus ideais e metas”
a serem perseguidas. A Revista Criticartes, com apenas um ano, dirigida por seu idealizador, o editor Rogério Fernandes Lemes, consegue tocar profundamente o âmago de quem entrevista. Base essencial a um retorno aos leitores sob máximas de exposição das mentes apontadas pela Revista. Assim senti-me, comprometido em oferecer aos leitores da Revista Criticartes a minha mais ampla e profunda impressão sobre os temas levantados e de questionamentos. Dessa forma, com o passar dos anos, inequivocamente a Revista Criticartes contará com uma verdadeira mostra do fazer literário brasileiro, constituindo-se em uma fonte de pesquisas, séria e comprometida, ao alcance de todos. Imprimir tamanho ritmo a um veículo de comunicação em seu primeiro ano, bem identifica aquele que o dirige – seus ideais e horizontes. Parabéns pelo primeiro ano da Revista Criticartes! Saio desta entrevista à ‘Aniversariante Revista Criticartes’, renovado, emocionado e infinitamente agradecido por tamanho privilégio que me foi concedido por seu Diretor Presidente, Fundador e Editor Chefe, Rogério Fernandes Lemes. Sobretudo por encontrar-me vivo e presente neste marco histórico da literatura brasileira, de comemoração do primeiro aniversário de um veículo Nacional e Internacional de Comunicação, com evidentes princípios, nobres propósitos e irrefutáveis proficuidades.
“Em nome da Academia de Letras do Brasil, utilizando-me das prerrogativas estatutárias, para indicar a Revista Criticartes ao Prêmio ‘Causas Imortais/ALB/2016’, pelos relevantes serviços prestados à Cultura Literária Brasileira”.
Outrossim, desejo êxito contínuo, saúde e sabedoria aos Editores e Colaboradores. Salvas à Revista Criticartes! Nossos sinceros votos de ‘Imortalidade’ a esta verdadeira e extraordinária Obra trimestral de referenciais a um fazer literário em um país ‘pobre politicamente’ - ‘rico em sonhos e ideais’ – ‘riquíssimo em coragem, perseverança e iniciativas’ a exemplo do Escritor e Poeta Rogério Fernandes Lemes e Revista Criticartes – o ‘Criador e a sua Obra’, juntos, completando sua ‘Primeira Volta ao Sol’, em demonstração da possibilidade real de implementação, consecução e transformação de ‘Sonhos em Realidade’. Salvas ao seu idealizador e Presidente - celebridade literocultural brasileira por excelência e força de sua obra, ao conquistar e consolidar espaço meio a um segmento de leitores ‘altamente críticos’ – de intelectos maduros, conscientes, esclarecidos e politizados. Curvo-me para cumprimentar esses célebres intelectuais, cientistas, ativistas culturais, professores e escritores, leitores da Revista Criticartes, com votos sinceros de saúde, prosperidade e uma passagem de ano repleta de alegria, paz e vitórias em seus projetos pessoais, familiares, institucionais e profissionais. Muito obrigado!